Repesco um texto do «Ladrões de Bicicletas» que já colei aqui...
«Imaginem um país com um norte com tradição industrial, alfabetizado, e um sul tradicionalmente agrícola, menos escolarizado. Um país onde, no conjunto, a economia era fechada, com o norte a vender tractores ao sul, e o sul produtos agrícolas ao norte. No norte, nasciam poucas crianças e a população envelhecia. Era preciso garantir as pensões de reforma no futuro e isso poderia ser feito aumentando a produção e venda de tratores e a poupança para constituir um fundo de investimento. A dificuldade é que o sul era pobre não absorvia mais tractores produzidos no norte.
A solução, descobriu-se no norte, seria exportar tractores. Para isso era preciso negociar acordos comerciais com outros países e baixar os custos de produção no norte (os salários) para garantir que os tractores fossem competitivos no mercado mundial. Em troca da abertura aos tractores, os parceiros comerciais do norte exigiram a abertura dos mercados do país aos seus produtos agrícolas. E assim ficou combinado.
Tudo corria bem para o norte – exportava muitos tractores e importava produtos agrícolas baratos. Em consequência o norte começou a acumular grandes excedentes comerciais. Acontece que para serem transportados para o futuro estes excedentes comerciais teriam de ser aplicados em alguma coisa. No entanto, como os salários tinham diminuído no norte e no sul a agricultura se ressentia da concorrência dos produtos agrícolas importados, não havia mercado interno que justificasse esses investimentos.
Foi aí que alguém do norte teve outra ideia. Se emprestarmos os nossos excedentes, sob a forma de dinheiro baratinho ao sul, eles podem comprar mais tractores, fazer estradas para transportar produtos agrícolas para o norte e se calhar podem construir escolas e tudo. Assim foi e durante algum tempo, no sul, até houve quem comprasse casas novas a crédito. Quando o sul ficou muito endividado os bancos do norte disseram: "Não pode ser, agora só vos emprestamos se pagarem juros de 30% ao ano". O sul, é claro, não podia pagar. E foi assim que a coisa deixou de funcionar.»
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