Seguimento Especial Depressão INGRID (22-25 de Janeiro 2026)

Bom, os modelos estão invariavelmente a deixar as coisas algo difusas. Não deixa de ser caricato como é que a esta distância GFS e ECMWF não se entendem em vários aspetos, e de facto acho que nos resta apenas o nowcasting. Apesar disto, não me parece que existam mudanças bruscas nas previsões, o ECMWF coloca temperaturas do bolbo húmido nos 0ºC e abaixo de 0ºC numa boa parte do interior norte e centro até à próxima madrugada, o que é muito positivo. Diria até que está mais fácil ver agora alguma neve acumulada em algumas regiões aos 500m, do que no início da semana. Ainda assim, vou deixar algumas notas finais.

Alguns dos pontos onde não há acordo entre os principais modelos:
1 - Timing do período mais frio: o GFS coloca-o algures no final do dia de amanhã, o ECMWF coloca a bolsa a entrar mais de madrugada;
2 - Crescimento de um núcleo depressionário adicional: O GFS não vê o dito núcleo, o ECMWF soma já duas saídas com esta perturbação, sendo que na última entraria mais a sul;
3 - Rotação de ventos de O/NO para S/SO: O ECMWF insiste nisto desde terça à noite, o GFS mantém a circulação essencialmente de O;
4 - Distribuição da precipitação: no ECMWF a precipitação está muito mais generalizada no litoral e mais dispersa no interior, parecendo-me que isso é uma das razões para o freezing level ser também diferente entre os modelos, apesar de que a resolução orográfica do ECMWF julgo que tende a ser melhor;

Sobre o dito núcleo adicional, de modo geral acho que acaba por ser mais nefasto do que benéfico, isto porque varre o frio e não me parece aumentar drasticamente a intensidade/abundância da precipitação nas horas em que ela seria mais necessária. O reforço que houve da precipitação por parte do ECMWF nas últimas saídas durante as horas mais frias, julgo que pouco tem a ver com este núcleo, mas sim com outros fatores como o facto dos valores de shear estarem muito mais democráticos e generosos, algo que já aparecia antes do modelo colocar este núcleo nas cartas. Em termos de cotas mais baixas diria que quem sentirá mais isto, naturalmente serão as regiões mais a sul e a partir de onde a depressão entrasse, porque estariam alinhadas diretamente com um fluxo diferente. As outras regiões mais a norte podem ficar numa situação mais neutra ou tirar algum benefício consoante a altitude, o frio disponível e a intensidade das células geradas.
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No meio disto surgem-me de facto algumas questões. A primeira é que na verdade a precipitação provocada por este núcleo pode ser forte, mas será que teria força suficiente para compensar o frio que entretanto se perde em altura? Conseguiria a dita depressão bombear com as suas células, ainda assim, o ar frio existente para baixo ou recuperá-lo através de processos de arrefecimento por fusão dos flocos?

Esta depressão faz já uma circulação bastante próxima da fronteira entre a massa de ar subtropical e a massa de ar polar, o que faz precisamente com que se possa comportar como uma espécie de "aspirador de ar mais quente e húmido" que não vai ajudar nada. Às 4h, a circulação com este núcleo começa a erodir o frio aos 500hPa de forma mais significativa no continente, ainda que aos 850hPa resista mais (prova de que a depressão interagiria mais em altura). Esse ar vai sendo arrastado para o interior e para regiões mais a norte, particularmente para Espanha. De facto, há uma coisa que esta depressão poderá potenciar bastante, que é o risco de sleet/granizo, já que a convecção será vigorosa e os valores de temperatura estariam mais altos a partir dos 850hPa (podendo derreter parcialmente os flocos). Sem a dita depressão, haveria frio mais consolidado a persistir durante mais horas, quiçá até boa parte da manhã de sábado o que ajudaria a um maior arrefecimento da superfície, com ela o cenário complica-se um pouco. A espessura da atmosfera começaria a aumentar mais cedo também.

A haver alguma vantagem desta depressão, isso poderia refletir-se mais em altitudes médias/altas em especial na linha do sistema Montejunto-Estrela, onde de facto teríamos uma reativação da precipitação ainda com temperaturas possíveis para neve e onde o vento de leste poderia ter algum papel, que não acredito que fosse muito significativo dadas as características que o dito núcleo parece tomar.

Mudando agora de assunto, as cartas do ECMWF têm mostrado valores de ISO 0º bastante consistentes e algo surpreendentes, aqui para a região do vale entre a Serra da Estrela e a Serra do Caramulo. Não tenho uma explicação taxativa para isto, mas olhando a todo o contexto fico tentado a dizer que o facto do vento rodar para SW na madrugada faz com que o ar frio entre numa espécie de funil aqui entre as montanhas e que seja "estrangulado" e suba intensificando os aguaceiros, deslocando muito a ISO 0ºC para baixo. Como a região de ventos de S/SW é relativamente circunscrita e está mergulhada na bolsa de ar frio muito mais extensa, não só diria que não há advecção de ar quente como o ar parece recircular aqui entre as montanhas e perder talvez até HR%. Naturalmente que isto é vantajoso também, porque o efeito de Foehn é cancelado ou torna-se pelo menos, diminuto.
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Última edição:
Aguaceiros moderados por aqui, com a temperatura a cair bem a cada aguaceiro que passa.
Já estou com 5.5°C
 
Saída do AROME 12z de ontem, precipitação acumulada em 6 horas.
 

Anexos

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Bom dia. Acabei de ler na previsão descritiva do IPMA actualizada esta madrugada que existe a possibilidade de queda de neve a cotas até aos 200/400m de forma temporária no norte e centro ao final do dia.