Alguns pensamentos sobre o evento:
- Os modelos veem bem a "atlanticidade", tanto que sempre previram temperaturas semelhantes às que se registaram na faixa costeira (até a uns 20/30 km do mar). Obviamente que o facto de ser uma entrada com grande recorrido marítimo prejudicou as cotas, mas também só assim é que se consegue precipitação em simultâneo com as temperaturas em altura como as que tivemos. Se, por absurdo, uma entrada continental tivesse precipitação com as mesmas temperaturas em altura, a cota de neve seria 0 em todo o país. Aqui está o efeito da "atlanticidade", e sempre esteve;
- O que faltou durante a madrugada para baixar as cotas de neve foi intensidade de precipitação. A norte do cabo Carvoeiro, as células chegaram "mortas" e as poucas que se formaram próximas da costa eram fracas (tenho a certeza de que se as células que atingiram a Grande Lisboa tivessem entrado mais a Norte haveria muitos locais a cotas 300/500 com bons nevões). A verdade é que no período mais favorável (18z - 6z) houve apenas 2 registos horários de precipitação superior a 3,1 mm (e o máximo foi de 4,6 mm) em toda a rede do IPMA a Norte do Cabo Carvoeiro. O que faltou para fazer baixar a cota de neve foi convecção a sério, como a que está a decorrer neste momento. A mais de 20 km do litoral, a norte do Cabo Carvoeiro, a generalidade das EMA esteve a noite toda entre os 2 e os 5ºC, bastava ter vindo uma célula mais forte para que a cota de neve baixasse para valores anormais, mas isso nunca aconteceu. Aqui os modelos falharam, andaram a modelar perto de 10 mm/ 3 horas, o que em eventos convectivos costuma significar alguns locais bem acima dos 20 mm. Nada disso se passou e, provavelmente, e apesar de ser contra-intuitivo, o facto de ter acontecido durante a noite arruinou o evento. Faltou o Sol para fortalecer a convecção;
- O modelo que previu a cota mais baixa foi o ECMWF, que é, de longe, o melhor modelo meteorológico que temos. Essa cota baixa foi muito influenciada pela temperatura a 2 m, que estava prevista rondar os 0ºC em cotas muito baixas. Por um lado, acredito que a inexistência de convecção forte, como o modelo previa, pode ter contribuído para esse erro, mas fico com uma dúvida: será que o modelo incorpora as cartas mirabolantes de "snow depth" que andaram a circular por aqui e na comunicação social, e que foi essa cobertura de neve irrealista que provocou aquelas T2m tão baixas e que nunca se vieram a registar?