Central Nuclear em Portugal - realidade ou utopia?

AnDré

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22 Nov 2007
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Não será porque tens as albufeiras cheias? :surprise:

Errado.
Os gráfico refere-se ao dia 10 de Fevereiro.
Nesse dia não havia nenhuma albufeira acima dos 90%. A média nacional estava nos 66%.

E as reservas de gás natural, também estavam cheias e por isso se aumentou a produção?

Claramente que se vê que o intuito era exportar na hora em que a energia era mais cara e importar na hora que era mais barata. Importar nuclear, porque o carvão, embora lentamente, pode ser praticamente desligado. A nuclear não.
 

Vince

Furacão
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23 Jan 2007
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Este debate fazia sentido até há poucos dias atrás. Agora não faz sentido discutir o assunto num país com risco sísmico elevado e que teria que construir a central precisamente à beira do mar devido ao elevado consumo de água duma central destas.

Depois de Chernobil ter entrado no esquecimento e estarmos nos últimos anos a assistir a um regresso em força do nuclear ao ocidente, agora vamos assistir a um forte retrocesso novamente. Ainda há pouco a Merkel disse que a Alemanha iria encerrar todas as centrais anteriores a 1980.

É um facto que esta central japonesa já era antiga, mas a segurança era muito melhor que a de Chernobil, e o que está a acontecer é mais uma lição de que há sempre um momento em que todos os azares se juntam para dar lugar a um acidente mesmo num país conhecido pela sua excelência na engenharia e fiscalização, tal como na aviação, transporte muito seguro e fiscalizado, mas quando vários factores se juntam dá-se o desastre.

E a energia nuclear só é barata porque o risco da mesma não é contabilizado, nem deve ser possível, apesar da probabilidade ser muito baixa caso aconteça um acidente grave os efeitos podem ser tão devastadores que nenhuma empresa ou seguradora terá capacidade de os assumir, é uma coisa que pode arruinar mesmo um país rico, quanto mais um pequeno. Há um argumento dado muitas vezes, ahh, mas os espanhóis também tem e bem perto da fronteira, pelo que estamos já a correr esse risco, sim, corremos, mas há uma grande diferença, a responsabilidade não é nossa, podemos sofrer com um acidente de Espanha mas não seremos nós a ter que limpar a principal porcaria que envolve custos astronómicos.

Daqui a 20 anos com a escassez do petróleo e gás talvez seja inevitável, mas para agora penso que este debate morreu.
 

Mário Barros

Furacão
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18 Nov 2006
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Cavaleira (Sintra)
Portugal e Espanha têm planos de emergência em caso de acidente na central de Almaraz

O secretário de Estado da Energia, Carlos Zorrinho, garantiu hoje que Portugal e Espanha possuem sistemas de informação permanente e planos de emergência para um eventual acidente na central nuclear de Almaraz, perto da fronteira entre os dois países.

"Temos sistemas de informação permanente e planos de emergência e de salvaguarda preparados com os espanhóis", afirmou o governante, questionado pela agência Lusa sobre a proximidade da central espanhola de Almaraz, a pouco mais de 100 quilómetros da fronteira com Portugal.

A central nuclear situa-se na província de Cáceres (Espanha), junto ao Rio Tejo, fazendo fronteira com os distritos portugueses de Castelo Branco e Portalegre.

O secretário de Estado da Energia e da Inovação considerou que "o Japão também estava preparado" para um acidente nuclear, e "Portugal estará, pelo menos, tão preparado como o Japão, mas o melhor é que não aconteça".

O Japão, disse, "é uma sociedade extraordinariamente desenvolvida e muito bem preparada e, como se vê, não foi fácil responder à gravidade do problema", depois de várias explosões na central nuclear de Fukushisma, no nordeste do país, que fizeram aumentar os níveis de radiação na região.

Carlos Zorrinho falava à margem de uma audição com entidades regionais, no âmbito da Estratégia Europa 2020 -- Plano Nacional de Reformas, que decorreu hoje na sede da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDRA), em Évora.

O secretário de Estado disse que o Governo português vê "com grande preocupação e com sentido de solidariedade" a situação no Japão, depois do acidente na central nuclear de Fukushisma, na sequência do sismo de sexta-feira, esperando que a questão "se resolva com muita rapidez".

Quanto a Portugal, Carlos Zorrinho garantiu que o Governo afastou a opção do nuclear "não por razões de segurança", mas por ter "uma solução que permite obter o mesmo tipo de disponibilidade que uma central nuclear e que combina a energia hídrica, eólica e solar e o gás".

"Não é por questões de segurança que nós não fizemos uma aposta nuclear embora sempre tenhamos dito que o nuclear é perigoso como agora se manifestou" no Japão, afirmou o governante.

Para o scretário de Estado, "não há sistemas absolutamente seguros e, se há sistema que quando falha a segurança o risco é maior é o da energia nuclear".

Além disso, acrescentou, este tipo de energia "é um sistema chave na mão" que "criaria pouco emprego e traria pouca tecnologia para Portugal".

Carlos Zorrinho contrapôs que a solução energética de Portugal tem "eventualmente, algum custo direto inicial um pouco maior mas, a prazo, tem um custo competitivo e também com a possibilidade de criar emprego e desenvolvimento e de ser também mais seguro".

i
 

ecobcg

Cumulonimbus
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10 Abr 2008
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E a energia nuclear só é barata porque o risco da mesma não é contabilizado...

Exactamente Vince. E esse risco é o de provocar danos ambientais enormes, cujos custos de reparação serão elevadíssimos (tal como referi no meu post anterior). Mais uma vez digo, se o preço do nuclear contabilizasse todos os custos directos e indirectos envolvidos, de certeza que não seria a mais barata.

Além disso, acrescentou, este tipo de energia "é um sistema chave na mão" que "criaria pouco emprego e traria pouca tecnologia para Portugal".

Carlos Zorrinho contrapôs que a solução energética de Portugal tem "eventualmente, algum custo direto inicial um pouco maior mas, a prazo, tem um custo competitivo e também com a possibilidade de criar emprego e desenvolvimento e de ser também mais seguro".

Mais uma opinião acertada, em como o nuclear não é a melhor opção.
 

frederico

Super Célula
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9 Jan 2009
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Este debate fazia sentido até há poucos dias atrás. Agora não faz sentido discutir o assunto num país com risco sísmico elevado e que teria que construir a central precisamente à beira do mar devido ao elevado consumo de água duma central destas.

Depois de Chernobil ter entrado no esquecimento e estarmos nos últimos anos a assistir a um regresso em força do nuclear ao ocidente, agora vamos assistir a um forte retrocesso novamente. Ainda há pouco a Merkel disse que a Alemanha iria encerrar todas as centrais anteriores a 1980.

É um facto que esta central japonesa já era antiga, mas a segurança era muito melhor que a de Chernobil, e o que está a acontecer é mais uma lição de que há sempre um momento em que todos os azares se juntam para dar lugar a um acidente mesmo num país conhecido pela sua excelência na engenharia e fiscalização, tal como na aviação, transporte muito seguro e fiscalizado, mas quando vários factores se juntam dá-se o desastre.

E a energia nuclear só é barata porque o risco da mesma não é contabilizado, nem deve ser possível, apesar da probabilidade ser muito baixa caso aconteça um acidente grave os efeitos podem ser tão devastadores que nenhuma empresa ou seguradora terá capacidade de os assumir, é uma coisa que pode arruinar mesmo um país rico, quanto mais um pequeno. Há um argumento dado muitas vezes, ahh, mas os espanhóis também tem e bem perto da fronteira, pelo que estamos já a correr esse risco, sim, corremos, mas há uma grande diferença, a responsabilidade não é nossa, podemos sofrer com um acidente de Espanha mas não seremos nós a ter que limpar a principal porcaria que envolve custos astronómicos.

Daqui a 20 anos com a escassez do petróleo e gás talvez seja inevitável, mas para agora penso que este debate morreu.



Há uns tempos li uma entrevista no Público a um especialista em petróleo e ele afirmava que havia reservas no mundo para o próximo século, mormente na Venezuela ou no Canadá, o problema é que os custos de extracção são mais elevados que no passado, e provavelmente o petróleo não descerá dos 100 dólares por barril.

Não me parece que seja nenhuma catástrofe, temos é que mudar de vida.

Por exemplo, não faz sentido que os centros urbanos continuem abandonados e sem vida. Temos que voltar a viver no centro das cidades e a deslocar-nos a pé, de bicicleta ou de transporte público para o emprego, como no passado. Devem voltar as ruas comerciais e o pequeno comércio de proximidade, por oposição ao centro comercial dos subúrbios. Para além disso, os serviços públicos não devem continuar a ser deslocalizados para os subúrbios, como sucedeu em Tavira, onde colocaram uma loja do cidadão num centro comercial fora da cidade.

O nosso desastroso modelo de ordenamento, feito para agradar a autarcas e construtores não é sustentável a longo prazo.

Outro exemplo de como poderemos poupar energia, corrigir o péssimo isolamento das habitações.

Tudo indica que não haverá falta de petróleo nas próximas décadas, o grande problema será o seu custo, por isso devemos já começar a adaptar-nos e a mudar de vida.
 

Paulo H

Cumulonimbus
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2 Jan 2008
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Imaginem só que ocorria um acidente similar a chernobyl numa cidade portuguesa como Lisboa ou Porto! Os custos ambientais, assim como o simples facto de se tornarem locais inabitaveís por 10, 20,.., anos, qual seria o custo de tudo isso se fosse incorporado na factura da electricidade??

Alguém desejaria ter uma central assim, ao lado da sua casa?

Somos um país demasiado pequeno para tamanho risco!

Talvez no futuro se construam centrais que consigam auto-desmantelar-se em caso de perigo! Exemplo: com 40kg de plutonio bastam para obter uma bomba atómica. Com apenas alguns kg se pode operar uma central nuclear. Então porque não compartimentar/blindar o combustível nuclear em menores (100gr) quantidades só se acoplando quando para produzir energia e separando-se cada parte para a sua blindagem individual quando existir um factor de risco eminente?! Não sou nenhum técnico nem expert na matéria, mas parece-me que o problema reside na quantidade de combustível nuclear! Pois quantidades menores são transportaveis e relativamente seguras! Como estas centrais detêm toda a quantidade disponível de combustível junto, logo, sem sistema de refrigeração irão explodir todas sem qualquer margem para dúvidas! É uma questão de tempo..

Ps: relativamente à central em espanha e ao facto de haver um bom sistema de informação e plano de evacuação.. Não é isso que me deixa mais tranquilo, nem a mim nem a ninguém!
 

Knyght

Cumulonimbus
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10 Mai 2009
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Este debate fazia sentido até há poucos dias atrás. Agora não faz sentido discutir o assunto num país com risco sísmico elevado e que teria que construir a central precisamente à beira do mar devido ao elevado consumo de água duma central destas.

OI?

Tens de falar com a ordem dos Eng.'s pois não creio que Portugal tenha alguma orientação de ser um país de elevado risco sísmico...
 

ecobcg

Cumulonimbus
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10 Abr 2008
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OI?

Tens de falar com a ordem dos Eng.'s pois não creio que Portugal tenha alguma orientação de ser um país de elevado risco sísmico...

Se calhar tens que te informar melhor:

tectonica_6.gif


tectonica_1.gif


retirado de: http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DE/NESDE/divulgacao/tectonica.html


ZonasSismicas.jpg

em que "região A corresponde à de maior risco sísmico, e D à de menor risco"

retirado de http://w3.ualg.pt/~jdias/GEOLAMB/GA5_Sismos/57_Portugal/573_MonitorizPort.html

Carta de Risco Sismico

Não estaremos, felizmente, numa zona similar à do Japão (perto de uma zona de subducção), mas estamos perto da zona de contacto entre as placas Euroasiática e a Africana. E até temos algum historial de sismos significativos (ou não tivesse o sismo de 1755 tido epicentro já aqui pertinho...).

Não será Portugal inteiro com elevado risco sismico, mas parece-me que os potenciais locais para a instalação de uma central, estarão todos dentro da zona de maior risco.



Do site do Lnec retiro esta frase:
A carta das isossistas máximas observadas até à actualidade, permite-nos concluir que o risco sísmico no continente é elevado: as maiores concentrações demográficas situam-se no seu litoral, precisamente nas áreas de maiores intensidades sísmicas observadas...
 

ct5iul

Nimbostratus
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27 Mar 2008
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O reactor nuclear de Sacavém ( Jornal Publico)

Para José Marques, a luz mais bela do mundo vem do fundo de uma piscina. Não de uma piscina qualquer, mas daquela onde se encontra o núcleo do Reactor Português de Investigação, perto de Sacavém. Do núcleo – o coração do reactor – emana um azul luminoso, intenso, tranquilizador até. Este Verão, o reactor recebeu um novo coração, com outro combustível, que entretanto voltou a brilhar.
Então José, o azul mudou?”, perguntava, a brincar, Parrish Staples, da agência nacional de segurança nuclear do Departamento de Energia dos EUA, depois de uma visita ao reactor há alguns dias. “Não, que eu tenha notado”, respondia-lhe, no mesmo tom, o director do Reactor de Investigação Português.

Mas o físico português não quis perder o momento, há cerca de duas semanas, em que o reactor com o novo combustível atingia a potência normal, que é de 1 megawatt, o equivalente a mil aquecedores a óleo domésticos de 1 quilowatt. Subiu para uma ponte móvel mesmo ao centro da piscina e pôs-se a fotografar o tal azul ou, como ele diz, “a luz mais bonita do mundo”.

Bem conhecida dos físicos nucleares, essa é a radiação de Cherenkov, um fenómeno descrito pelo físico russo Pavel Cherenkov, pelo qual ganhou o Nobel da Física de 1958. Durante a reacção em cadeia, os átomos de urânio são escaqueirados com neutrões: dessa cisão resultam outros elementos radioactivos, cuja posterior desintegração origina a emissão de electrões e positrões. Ora, a luz azul é o efeito resultante do facto de essas partículas viajarem mais depressa do que a luz na água (a luz viaja a menos de 300 mil quilómetros por segundo na água, enquanto as partículas o fazem a essa velocidade).

Para chegar ao pé do reactor português e ver a inesquecível radiação de Cherenkov, é preciso ir ao Instituto Tecnológico e Nuclear. José Marques, de 42 anos, a trabalhar no reactor desde 1997, é o cicerone de uma pequena comitiva, para assinalar a conversão do reactor.

Entre os convidados, além de Parrish Staples, encontra-se James Matos, do Laboratório Nacional de Argonne, perto de Chicago; John Kelly, representante da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA); e Jean-Louis Falgoux, da Cerca, a empresa francesa que fabricou do combustível para o reactor português.

José Marques encaminha-os até à porta metálica de um pavilhão, com um palmo de grossura, por cima da qual se lê, em letras cor-de-rosa, “reactor em operação”. Transpõem essa porta, esperam numa salinha até outra porta igual se abrir e, depois de passarem por um corredor, surge-lhes a piscina do reactor. Ergue-se nove metros acima do solo, no centro, sem qualquer janela para o exterior. No fundo da piscina, repousa o coração do reactor rodeado por 450 mil litros de água, que blindam a radiação.

O enriquecimento do urânio

Neste momento, o núcleo só tem urânio de baixo enriquecimento, tendo sido substituído o núcleo com urânio muito enriquecido. Na natureza, o urânio natural é quase só do isótopo (forma) 238, possuindo apenas 0,7 por cento de urânio-235, aquele que interessa para uma reacção em cadeia. Por isso, tem de se enriquecer o urânio natural com o isótopo 235.

Se for para um reactor de produção de electricidade, é enriquecido até cinco por cento. Se for para um reactor de investigação, como o português, o enriquecimento vai até quase 20 por cento. Quando se excede os 20 por cento, o urânio é considerado de alto enriquecimento. Era o que sucedia com anterior núcleo do reactor português: comprado aos EUA em 1973, tinha urânio enriquecido a 93 por cento.

“Pouco depois desse urânio ter sido comprado, na Administração Carter, os EUA decidiram limitar as vendas deste tipo de material, dado que poderia ser convertido para usos militares, para bombas”, explica José Marques. “A maior parte dos países têm vindo a converter os reactores para um enriquecimento inferior a 20 por cento, dado que esse tipo de material já não tem interesse para aplicações militares.”

Agora chegou a vez do reactor português. Começou a funcionar a 25 de Abril de 1961, quando se fez a primeira reacção nuclear controlada em Portugal. Na altura, pensava-se que o país poderia vir a ter uma central nuclear de produção de energia eléctrica, uma ideia abandonada nos anos 70. É a terceira vez que se compra combustível para o reactor, depois do que foi adquirido em 1961 (devolvido em 1999 aos EUA) e em 1973 (em uso até agora).O projecto para mudar o núcleo necessitou de três anos. “Tenho mais de 500 e-mails de José Marques”, lembra James Matos, para exemplificar o imenso trabalho.

O Departamento de Energia dos EUA deu o urânio já enriquecido e uma parte do dinheiro para pagar o fabrico do combustível à Cerca, a outra parte foi paga por Portugal (no total, custou 500 mil euros). O laboratório de Argonne e a equipa do reactor nuclear português fizeram os estudos de segurança para a mudança do núcleo. E à AIEA coube a coordenação global do projecto, dando a ajuda que se necessitasse e avaliando os estudos de segurança feitos.

A 31 de Maio, o reactor era parado. Em Junho, a AIEA enviava uma carta formal dizendo que apoiaria qualquer pedido de licenciamento que os responsáveis pelo reactor fizessem às entidades portuguesas competentes. Em Agosto, a Direcção Geral de Geologia e Energia concedia, assim, a licença de operação com o novo combustível. No início de Setembro, o novo núcleo começava a operar a baixa potência.

“Herdei um sonho, que é manter o reactor a funcionar nas melhores condições e disponibilizá-lo à comunidade científica”, resume José Marques. Para tal, terá urânio que chegue até 2016.

Como é o núcleo e o que vai fazer-se com ele
Se, pela luz azul, o coração do reactor nuclear português é fácil de localizar dentro da sua piscina, como é ele exactamente? Do topo da piscina, um conjunto de tubos cilíndricos desce até ao reactor: são as barras de segurança, que, caso seja necessário parar a reacção em cadeia, entram pelo coração do reactor adentro e absorvem os neutrões que fazem falta para manter a reacção.

O sítio onde entram essas barras, visto de cima, parece uma grelha: na verdade, são 12 paralelepípedos na vertical, a que se chama os “elementos de combustível”. Em cada um desses elementos, com 70 centímetros de altura, existem placas de alumínio e são elas que têm o urânio no miolo. Alguns desses elementos têm 18 placas de alumínio, enquanto outros, aqueles onde descem as barras de segurança, possuem uma dezena.

O coração velho repousa num canto, no fundo da piscina, até os EUA o virem buscar. Se apagássemos todas as luzes, ainda veríamos uma luz azul ténue, durante anos.

Dentro da água, junto ao novo coração do reactor (o único na Península Ibérica dedicado à investigação científica), irão ser colocados os mais diversos objectos para serem irradiados. Já se irradiaram peças arqueológicas para ver a composição, rochas lunares, esterilizaram-se moscas dos citrinos ou testaram-se murganhos à procura de um tratamento selectivo do cancro. O reactor serve também para investigação fundamental médica, por exemplo produzindo isótopos (formas de elementos) radioactivos.
O estudo de materiais num ambiente de radiação é outra das suas utilizações, razão por que o reactor português faz parte de uma rede europeia de pequenos reactores: “Vão fazer-se estudos de materiais para a próxima geração de reactores de produção de electricidade”, explica José Marques, director do reactor português.

Outra das vertentes do reactor é a educação: “Tem sido uma ferramenta de ensino desde o início da sua operação em 1961. Todos os anos recebemos dezenas de alunos universitários, que aí realizam trabalhos experimentais que não poderiam fazer noutro sítio. Recebemos também milhares de estudantes do ensino secundário, que têm assim o primeiro contacto com o ‘nuclear’”, acrescenta José Marques.

A 51ª conversão de um núcleo americano
Com o caso português, os EUA já mudaram o combustível a 51 reactores nucleares de investigação, desde 1978. Nesse ano, lançaram um programa para converter o urânio altamente enriquecido de reactores de investigação em urânio de baixo enriquecimento. O motivo? Se for roubado urânio de um reactor de investigação enriquecido acima de 90 por cento com o isótopo 235, esse material pode ser utilizado para fazer bombas. O melhor, considerou-se, seria deixar de usar urânio muito enriquecido para fins civis. “A única maneira de convencer países que podem ser problemáticos a não usar esse material é dar o exemplo. É não haver excepções para ninguém”, explica o físico José Marques. Em 2004, o programa americano ganhou impulso, em particular por causa dos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, chamando-se Global Threat Reduction Iniciative.

Depois disso, os presidentes George W. Bush (EUA) e Vladimir Putin (Rússia) acordaram um programa conjunto: “Tanto os americanos como os russos se comprometeram a fazer a limpeza do mundo. Foram eles que forneceram tecnologia nuclear, cada um na sua esfera de influência. Tomaram a responsabilidade de ir buscar o material que forneceram desde os anos 50, o que não é trivial”, diz José Marques.

Entre os 51 reactores de investigação de origem americana já convertidos, 14 estão nos EUA (aí, outros 28 aguardam conversão). “Ainda há cerca de outros 50 para ser convertidos que usam urânio de alto enriquecimento fornecido pelos EUA”, conta José Marques. Quanto aos núcleos de origem russa, houve quatro conversões.

Entre reactores americanos e russos, qual é a situação? “Há mais de 100 reactores a operar com urânio altamente enriquecido. Há 20 toneladas de urânio altamente enriquecimento por aí, que dão para fazer centenas de armas nucleares”, refere John Kelly, representante da AIEA. “A conversão de núcleos é um programa de segurança.”

 

MSantos

Staff
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3 Out 2007
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Azambuja / Mte. Barca (Coruche)
A construção de uma central nuclear em Portugal ia ser uma coisa tão demorada e tão lenta e com derrapagens orçamentais gigantescas...

Primeiro ia demorar anos a escolher o local, depois ia haver interesses dos amigos do partido a querer beneficiar com a construção da central, e depois resta saber se o deixa andar típico português não ia causar um acidente nuclear:lmao:
 

Vince

Furacão
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23 Jan 2007
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Energia nuclear exige uma agência de segurança excepcional, de elevada competência técnica e cientifica, independente e incorruptível. É uma coisa que para ser bem feita tem elevados custos que num país pequeno como Portugal não deve fazer muito sentido. Construir toda uma infraestrutura de estudos, fiscalização, gestão, controlo, etc, só para uma central ? Uma coisa é um país como a França que gere dezenas de centrais, outra é um país pequeno como Portugal. Faz mais sentido uma empresa portuguesa ter activos por exemplo numa empresa francesa ou espanhola que detêm muitas centrais , do que construir uma central isolada aqui. E se um dia mais tarde essa necessidade se tornar inevitável, faz mais sentido a tal agência de segurança e a empresa ser transnacional.