Floresta portuguesa e os incêndios

Portugal e Espanha gastam 48 milhões em 150 mil cabras para prevenir fogos na raia

Foi ontem apresentado, na Guarda, o projecto Self-Prevention. A ideia, exposta por um agrupamento de cooperação territorial que abrange 187 entidades de ambos os lados da fronteira, consiste na reintrodução de 150 mil cabeças de gado caprino, nas zonas raianas dos distritos da Guarda, Bragança, Zamora e Salamanca, como "limpadores naturais" dos campos.
Tal medida permitirá, de acordo com José Luís Pascoal, presidente do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial (AECT) Duero-Douro, a prevenção de incêndios, mas também o "desenvolvimento económico e rural" daquelas zonas. O responsável do AECT garantiu que o objectivo é colocar os animais nos campos agrícolas e montes abandonados. Esta será a forma encontrada para evitar fogos florestais, uma vez que os terrenos ficaram "livres de vegetação", concluiu.
A partir do próximo ano serão assim distribuídas 150 mil cabras pela área do agrupamento territorial. Um "método natural para a limpeza das florestas e dos campos", referiu ainda José Luís Pascoal, garantindo que o projecto Self-Prevention permitirá também o desenvolvimento social e económico das zonas raianas.
"A sustentabilidade social, económica e ambiental" das regiões abrangidas passará pela criação de 558 postos de trabalho em diversas áreas, "desde pastores a comerciais", explicou. O estabelecimento de uma empresa, que ficará responsável pela distribuição dos efectivos caprinos e pela criação de equipamentos que sustentem a rentabilidade económica do projecto, a construção de 12 queijarias, 15 lojas e dois matadouros para abate dos animais surgem ainda como factores de importância neste projecto.
A ideia, apoiada pelos Governos de Portugal e de Espanha e por fundos comunitários, implicará um investimento de 48 milhões de euros. Por sua vez, "a rentabilidade económica criada nos campos e terras será para as gentes que moram nelas", acrescentou o presidente do AECT. Para os governadores civis da Guarda e de Bragança, este é um projecto que "não poderá falhar". Uma ideia que é, para Santinho Pacheco, "uma flor de esperança para a região".

PÚBLICO (25.08.2010)

Só falta saber se o projecto vai mesmo sair do papel ... :lmao:
 
É uma medida um pouco assim pro esquisita.. A raia escolhida dos distritos de Bragança e Guarda, têm pouca densidade florestal, são muito rochosas! Excepto ali a zona do sabugal onde ainda há algum pinhal.

Deve ser daqueles projectos pra fogo de vista, portugal e espanha, coisa e tal.. Muito bonito mas não serve pra nada!!

E eu que julgava que a maior mancha florestal de pinheiro bravo da europa e que supostamente deveria ser protegida a todo o custo, estava limitada pelos distritos de castelo branco, coimbra, viseu e leiria!
 
Mas a crença de que Portugal era há 100 anos um país coberto de árvores de Norte a Sul não resiste à análise da História. De acordo com o investigador Inocêncio Seita Coelho, em 1867 a área florestal representava 14,1 por cento do território; em 1995 ocupava 38,2 por cento, um valor muito próximo do actual.

Muito interessante, acho que pouca gente em Portugal tem esta noção.
 
Muito interessante, acho que pouca gente em Portugal tem esta noção.

Vou ler todos os links sugeridos, inclusivé os do Vince que ainda não tive tempo de consultar.

Acredito que Portugal não tenha tido muita densidade florestal nos últimos séculos ou milénios (ao contrário do que se julga), mas tal poderá dever-se ao excesso de pastorícia.

Incendios também acredito que houvesse desde sempre, não tanto com a mesma frequência e intensidade, pois também a floresta era outra. Todos sabemos que um eucalipto se incendeia com fogo a 10m (o eucaliptol é volátil e combustível) e que as suas folhas podem viajar em brasa (incandescentes) por 1 ou 2 km. Também o pinheiro propícia como resinosa, uma certa volatilidade combustível. Acredito que o nosso clima de mediterrâneo (com as suas variantes/feições regionais) propícia a ocorrência de incêndios, nem que seja por ocorrência de trovoadas secas.

Mas é sabido desde os tempos na Mesopotâmia (hoje, Iraque) que o excesso de pastorícia levou à desertificação (o abate de árvores e a escassez de manto vegetal).

Daí que ao observar toda aquela faixa na raia desde a Guarda até ao planalto transmontano (que é no fundo, a continuação do maciço planaltico desde a Guarda) rochosa, com pouca densidade florestal, pode advir daí um maior perigo: escassear o manto vegetal que ainda vai segurando as terras.


Mas eu vou ler os links sugeridos, logo que tenha tempo! :thumbsup:
 
Há uns tempos enviei uma pergunta/sugestão à Câmara de Lisboa. Se já tinham pensado ou planeado algum programa de erradicação dos eucaliptos do parque florestal de Monsanto.

Fica aqui um excerto da resposta:

... de acordo com a indicação dos Serviços competentes deste Departamento, de informar que não há a intenção de efectuar a erradicação dos eucaliptos no Parque Florestal de Monsanto, pois efectivamente estas árvores foram plantadas nos anos trinta e quarenta, encontrando-se em povoamentos mistos e com um estrato arbustivo muito rico. Com efeito nesta situação, não se verifica qualquer semelhança com as plantações para produção de celulose, cuja condução cultural potencia o esgotamento dos solos, e a necessidade de obter um crescimento muito rápido para rentabilizar os investimentos, leva à eliminação do estrato arbustivo, reduzindo assim drasticamente a biodiversidade. Temos pois procurado preservar estas árvores, plantadas há cerca de 60 anos, nomeadamente criando condições para a respectiva regeneração natural, e assim perpetuar os eucaliptos no PFM, uma vez que são árvores emblemáticas deste parque, das de maior porte que aqui se podem encontrar e que estão na memória colectiva de todos os lisboetas. Acresce referir que a biodiversidade não nos parece ameaçada em Monsanto, relativamente a outro locais, dado que todos os anos são plantadas milhares de plantas de espécies autóctones e realizadas diversas operações de erradicação de não indígenas invasoras, nomeadamente acácias.
...


Continuo a achar que era uma ideia interessante.

Claro que a ideia não seria cortar todos os eucaliptos de um momento para o outro, mas fazer um plano de vários anos, onde se fossem cortando determinadas áreas (reflorestadas logo de seguida com espécies autóctones) e onde fosse garantido que novos eucaliptos não cresceriam.

É verdade que nenhuma área de Monstanto é um eucaliptal puro, mesmo as zonas com muitos eucaliptos têm vários tipos de árvores à volta. Isso só confirma a ideia que essas árvores podiam ser retiradas sem que Monsanto ficasse de repente vazio.

Outra questão interessante é que um projecto destes não teria qualquer problema financeiro, bem pelo contrário. A venda da madeira não só pagaria o custo da erradicação, como da reflorestação e até de outros projectos ambientais em Lisboa.

Não sou ingénuo para pensar que alguma vez teremos Portugal sem eucaliptos. A sua importância económica é muito grande e certos lobbys nunca permitiriam que esta árvore desaparecesse.
Mas acho que tirando determinadas áreas onde o eucalipto é plantado pelo seu interesse económico, as outras áreas do país onde a árvore existe sem razão aparente, poderiam ficar sem ela.

Não vejo qualquer razão para Monstanto ter cerca de 30% a 50% da sua área com eucaliptos, nem me convence essa ideia que o eucalipto é uma árvore emblemática de Lisboa só porque foram plantado nos anos 30 (desculpem lá, mas o único sitio do mundo onde essa árvore é emblemática é a Austrália) :mad:
 
Boa noite,

Sendo Bombeiro Voluntário, e visitante assíduo a este forum, quero lançar um desafio aos moderadores e a outros users.

Como se sabe, Portugal está a ser fustigado por um grande numero de incêndios florestais na última semana, e o meu desafio passa por se fazer a nível distrital, a PREVISÃO a 3 dias (caso seja possível), dos vários parâmetros associados, humidade relativa, vento ao longo do dia, temperatura ao longo do dia.

Esta informação seria pertinente para se obter dados mais concretos sobre, mudanças de direcção do vento ao longo do dia, altura mais perigosa/favorável para o combate.

Gostaria de contar com vosso apoio.

Com os melhores cumprimentos.
 
Boa noite

Torna-se um pouco difícil fazer previsões concretas visto que o facto de existir um incêndio altera completamente o comportamento da atmosfera local.
Assim, até haver um incêndio, as previsões são as que podemos tirar dos modelos meteorológicos, IPMA, etc; durante um incêndio as altas temperaturas criam uma zona de baixa pressão que pode criar mudanças da direcção do vento inesperadas, assim como outras manifestações meteorológicas imprevisiveis, e os dados dos modelos tornam-se inválidos para o local.
 
Deveria haver diariamente no CNOS e nos CDOS uma analise detalhada das condições meteo bem como do fwi. Essa analise é extremamente util antes de ocorrerem fogos...isto é, se soubermos as condições meteo poderemos antecipar a tipologia de incendios que vamos ter e dessa forma melhoer preparar as estrategias de ataque!
Um exemplo pratico: teremos a partir do fim de semana correntede leste! Esta situação levara a existencia de ventos moderados...primeira situação a ter em atenção é a probabilidade elevada de termos fogos de vento (rapidos, com saltos, estreitos mas longos)...desaconselhadas manobras de fogo a cabeça, sendo fundamental flanquear bem!
Segunda situação é que durante a tarde (isto na faixa litoral e de transição para o interior) havera entrada de vento de noroeste...quero dizer que num incendio que surja em viseu (exemplo) de madrugada tera a direcção Este-Oeste, mas a tarde se a cauda não ficar bem consolidada sera a nova cabeça do incendio pois o vento entrara de oeste.
Não sei se me expliquei bem, mas o que é facto é que teremos fogos de vento, que trocarão completamente a volta aos combatentes devido a alteração PREVISIVEL do vento a tarde...
 
Boa noite

Torna-se um pouco difícil fazer previsões concretas visto que o facto de existir um incêndio altera completamente o comportamento da atmosfera local.
Assim, até haver um incêndio, as previsões são as que podemos tirar dos modelos meteorológicos, IPMA, etc; durante um incêndio as altas temperaturas criam uma zona de baixa pressão que pode criar mudanças da direcção do vento inesperadas, assim como outras manifestações meteorológicas imprevisiveis, e os dados dos modelos tornam-se inválidos para o local.

Correto! Os riscos que os bombeiros estão sujeitos, no combate aos incêndios, é demasiado elevado como para tomar como 100% fiaveis as previsões de vento com mais de 24h de antecedência. Eu diria que é muito mais relevante o nowcast, pois talvez se possam prever alterações de mudança de vento que aconteçam previamente noutros locais, na mesma hora e assim poder prever-se a mesma direção do vento no local do incêndio. Mas mesmo assim seria demasiado arriscado! Como foi referido, o vento sofre alterações de direção e intensidade devido a:
- circulação geral (previsível)
- características do terreno (orientação/ exposição, localização em vale ou encosta ou no cume)
- vento local gerado pela energia libertada na linha de fogo (aumento de temperatura->baixa térmica->vento que tende a encher/ alimentar o incêndio até equilibrar a pressão).

Mas eu diria que existem horas do dia, em que o risco é mais elevado, nomeadamente a partir do meio/fim de tarde. Normalmente o vento tende a mudar de direção nessas horas, devido à ação de baixas térmicas ou da nortada.

Pessoalmente nunca arriscaria fazer contrafogos no final das tardes. O risco é demasiado elevado!
 
Correto! Os riscos que os bombeiros estão sujeitos, no combate aos incêndios, é demasiado elevado como para tomar como 100% fiaveis as previsões de vento com mais de 24h de antecedência. Eu diria que é muito mais relevante o nowcast, pois talvez se possam prever alterações de mudança de vento que aconteçam previamente noutros locais, na mesma hora e assim poder prever-se a mesma direção do vento no local do incêndio. Mas mesmo assim seria demasiado arriscado! Como foi referido, o vento sofre alterações de direção e intensidade devido a:
- circulação geral (previsível)
- características do terreno (orientação/ exposição, localização em vale ou encosta ou no cume)
- vento local gerado pela energia libertada na linha de fogo (aumento de temperatura->baixa térmica->vento que tende a encher/ alimentar o incêndio até equilibrar a pressão).

Mas eu diria que existem horas do dia, em que o risco é mais elevado, nomeadamente a partir do meio/fim de tarde. Normalmente o vento tende a mudar de direção nessas horas, devido à ação de baixas térmicas ou da nortada.

Pessoalmente nunca arriscaria fazer contrafogos no final das tardes. O risco é demasiado elevado!

Se for numa encosta voltada a Este por exemplo, é ao final da tarde o mais aconselhavel...a taxa de inflamabilidade do combustivel na encosta Ezste é baixo ao final da tarde!
Apesar de que não é o mais importante para os fogos de supressão...depende das oportunidades, etc etc...mas o fogo de supressão deve ser usado maioritariamente ao final da tarde e noite...
 
Se for numa encosta voltada a Este por exemplo, é ao final da tarde o mais aconselhavel...a taxa de inflamabilidade do combustivel na encosta Ezste é baixo ao final da tarde!
Apesar de que não é o mais importante para os fogos de supressão...depende das oportunidades, etc etc...mas o fogo de supressão deve ser usado maioritariamente ao final da tarde e noite...

AJB, desculpe alguma falta de conhecimentos técnicos da minha parte :), mas o que é um fogo de supressão? É aquilo que chamamos de contrafogo?

Quanto à taxa de inflamabilidade da carga combustível ser baixa, nas encostas Este ao final da tarde, julgo que embora seja menor, não significa que seja baixa. Imaginemos que ao final da tarde, nessa encosta Este, a temperatura ainda está acima de 35C e a humidade relativa nos 10% (como tem estado nos últimos dias, nas horas de maior calor), enfim diria que a taxa de inflamabilidade do combustível continua sendo elevada, mesmo que menor que na encosta Oeste.
 
AJB, desculpe alguma falta de conhecimentos técnicos da minha parte :), mas o que é um fogo de supressão? É aquilo que chamamos de contrafogo?

Quanto à taxa de inflamabilidade da carga combustível ser baixa, nas encostas Este ao final da tarde, julgo que embora seja menor, não significa que seja baixa. Imaginemos que ao final da tarde, nessa encosta Este, a temperatura ainda está acima de 35C e a humidade relativa nos 10% (como tem estado nos últimos dias, nas horas de maior calor), enfim diria que a taxa de inflamabilidade do combustível continua sendo elevada, mesmo que menor que na encosta Oeste.

Na boa:thumbsup:
A taxa de inflamabilidade surge para termos um indicador de se o incendio tende para melhor ou para pior, assim, se o incendio estiver a "caminhar" de uma encosta este para oeste ao final da tarde, PODERA (ha outros factores) tender a pior...e vice versa a melhor...é um indicador apenas, tambem muito importante para a realização de fogos controlados.
Então é assim:
FOGO TÉCNICO= Fogo Controlado + Fogo Supressão
Fogo de Supressão= Fogo Tactico + Contrafogo

Sugiro uma leitura deste Regulamento Despacho n.º 14031/2009, de 22 de junho. D.R. n.º 118, Série II
Aprova o Regulamento do Fogo Técnico

Consulta aqui:
http://www.icnf.pt/portal/florestas/dfci/efc
 
Como já foi dito as condições meteorológicas voltam a agravar-se no domingo. Nova corrente de leste até quinta-feira...