Monitorização do Clima de Portugal - 2021

Tópico em 'Climatologia' iniciado por joralentejano 6 Jan 2021 às 13:16.

  1. algarvio1980

    algarvio1980
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    Mês de março | Quente e muito seco em Portugal

    A temperatura média no globo em março de 2021 foi 0.2 °C superior à média de 1991-2020. Foi o 8 º valor mais alto para o mês de março; os sete marços mais quentes ocorreram já depois de 2010.
    Na Europa a o valor médio da temperatura média do ar foi próximo do valor médio.

    Em Portugal continental o mês de março, classificou-se como quente e muito seco (Fig. 1).

    O valor médio de temperatura média do ar, 12.57 °C, foi 0.66 °C superior ao valor normal 1971-2000.
    O valor médio de temperatura máxima do ar foi +1.65 °C superior à normal, sendo o 5º maior valor desde 2000; o valor médio de temperatura mínima do ar foi -0.34 °C inferior ao valor normal.

    De destacar ao longo do mês valores de temperatura máxima superiores à normal mensal entre 14 e 18 e a partir de dia 22, sendo de realçar os dias 28 e 31 com desvios > +6 °C.
    No dia 31 foram ultrapassados os maiores valores de temperatura máxima em algumas estações meteorológicas, sendo de destacar Elvas (30.1 °C) e Aveiro (29.8 °C), estações com séries longas, desde 1941 e 1981, respetivamente.

    O valor médio da quantidade de precipitação em março, 15.3 mm, foi muito inferior ao valor normal 1971-2000 e corresponde a apenas 25 %.

    De acordo com o índice PDSI no final de março algumas regiões do território voltaram a estar na classe de seca fraca (vale do Douro, vale do Tejo, Alentejo e Algarve).
    A distribuição percentual por classes do índice PDSI no território é a seguinte: 0.6 % chuva fraca, 81.3 % normal e 18.1 % seca fraca.

    Este documento trata-se de um resumo climatológico, para conhecer o boletim climatológico deste mês com a informação completa, aguarde até à sua publicação e colocação no link: https://bit.ly/3p0J104


     
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  2. joralentejano

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    Nada que não se tivesse já á espera e com a seca a surgir em alguns locais, incluindo aqui na minha zona.

    Uma coisa que não entendo são os 30,1ºC de Elvas que supostamente são recorde. O anterior valor mais alto de temperatura máxima registado em Março era de 29ºC registados em 1992 segundo o que está na tabela, mas na ficha climatológica da estação estão 30,8ºC registados em 1995.
    Até pensava que a estação já tinha registado um valor mais alto depois de 2000, mas pelos vistos não.
     
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  3. N_Fig

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    Também não entendo, até fui verificar se as estação atual estaria num lugar diferente mas não
     
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  4. joralentejano

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    Penso que o valor que está na ficha climatológica está errado.
    Andei a verificar as fichas de outras estações aqui do Alentejo e os maior valores de máxima para o mês de Março na estação de Évora, Benavila (Avis), Mora, Amareleja e até mesmo de Beja correspondem a 1992. Alvega também tem o maior registo nesse ano. De referir também que, tal como está na tabela apresentada pelo IPMA, os registos de todas estas estações foram obtidos nos dias 21 e 22.
    Portalegre é a estação que está mais perto, mas a máxima desse mês para a estação foi registada no ano de 1997.

    Também começa a ser cada vez mais necessário basearem-se nas normais mais recentes.
     
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  5. N_Fig

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    Penso que sim, em Portalegre a máxima nesse dia de 1995 foi de apenas 11,5 ºC...
    https://www.tutiempo.net/clima/03-1995/ws-85710.html
     
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  6. joralentejano

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    Pronto, está mesmo errado e foi realmente batido recorde.
    Apesar de haver grandes assimetrias entre Portalegre e Elvas, é completamente impossível haver uma discrepância tão grande de valores.
     
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    #66 joralentejano, 9 Abr 2021 às 23:18
    Última edição: 9 Abr 2021 às 23:25
  7. algarvio1980

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    Convecção com invulgar refletividade - Coimbra

    Durante a tarde do dia 24 Abril 2021 Portugal continental encontrava-se sob a ação da tempestade Lola. Na sua circulação a depressão transportava sobre o território uma massa de ar instável (CAPE entre 600 e 1000 J/kg), com valores de água precipitável relativamente expressivos (26 mm). O nível da isotérmica de zero situava-se a cerca de 2700 m de altitude, verificando-se também a disponibilidade de wind shear vertical na camada 0-6 km.

    Este ambiente era favorável a: 1) transporte rápido da água para níveis muito elevados, produzindo o seu brusco arrefecimento e consequente formação e deposição de granizo em núcleos convectivos (assim designados os volumes situados no interior das torres convectivas em que ocorre a deposição de hidrometeoros densos e relativamente pesados como é o caso do granizo; este pode, ou não, cair no solo, em função da estrutura vertical da troposfera); 2) crescimento prolongado das pedras de granizo, devido à separação entre as correntes convectivas ascendentes e descendentes, mantida pelo referido wind shear.

    O radar de Arouca/Pico do Gralheiro (A/PG) permitiu efetuar a monitorização detalhada de um aglomerado convectivo que evoluiu de Sul para Norte, a Este da cidade de Coimbra, após as 16 UTC (17 h, hora local) do dia 24 abril. Pelas suas caraterísticas, incluindo valores de refletividade especialmente elevados, esta perturbação justificou a emissão de um aviso de precipitação para os distritos de Aveiro e Viseu por parte do IPMA, tendo-se verificado que a atividade convectiva associada veio a desenvolver-se sobre uma área pouco habitada, embora relativamente extensa, situada na zona de fronteira entre os dois distritos. Como por vezes se verifica em sede de Nowcasting (previsão de muito curto prazo) envolvendo atividade convectiva relativamente isolada, é possível que fenómenos afetem áreas da qual não cheguem relatos.

    Conforme revelado pelo radar de A/PG, este aglomerado convectivo era caraterizado pela presença de valores de refletividade (Z) com elevada magnitude (por vezes superior a 60 dBZ) e a grande altitude (entre 3000 m e 4000 m), sinónimo da presença de movimentos verticais ascendentes extremamente vigorosos. Seguindo as observações disponíveis em corte vertical foi possível identificar elevados valores de refletividade (≈59 dBZ) a cerca de 3000 m de altitude pelas 16:10 UTC (Fig 1, painel da direita, em cima). Nessa região do núcleo convectivo os hidrometeoros foram classificados como granizo (Fig 1, painel da direita, em baixo), classificação que constitui uma das mais-valias da tecnologia de polarização dupla incorporada no sistema de radar de A/PG. No entanto, àquela hora, o algoritmo classificativo indicava também que sob o mesmo núcleo de convecção, a cerca de 1000 m de altitude, a precipitação ocorria sob a forma de chuva e a grandeza refletividade diferencial (ZDR), um dos momentos polarimétricos processados, revelava que se tratava de gotas de grande dimensão (ZDR com valores entre 2 e 4 dB, grandeza não mostrada no painel, mas assinalada na área com retângulo, Fig 1, painel da direita, em baixo). A esta hora era ainda visível a extensa bigorna projetada para Norte, representativa da presença de vento forte em níveis elevados (Fig 1, painel da direita, em cima).

    Pelas 16:30 UTC, numa fase mais madura do aglomerado convectivo, foram identificados valores de refletividade de ainda maior magnitude (≈64 dBZ) a 3000 m de altitude (Fig 2, painel da direita, em cima), novamente classificados como granizo no núcleo da convecção (Fig 2, painel da direita, em baixo). Em torno de 5000 m de altitude, o granizo corresponderia a pedras de grande dimensão, por indicação da refletividade diferencial (com valores de -2 dB, grandeza não mostrada no painel, mas assinalada com retângulo, Fig 2, painel da direita, em baixo). A presença de granizo de grande dimensão a esta altitude é invulgar e reflete a extensão vertical e intensidade das correntes ascendentes presentes.

    Ainda que se encontre em fase exploratória, esta tecnologia de polarização dupla que presentemente equipa já 3 dos radares da rede nacional, permite discriminar diversos tipos de hidrometeoros e, por vezes, detalhar outras caraterísticas, como a sua dimensão média, embora se trate de observações efetuadas a altitudes elevadas.

    Legendas das figuras associadas
    :
    Fig 1 – Imagem de PPI de refletividade (em dBZ), baixa elevação, com indicação do segmento de corte orientado “AB” efetuado (painel da esquerda). Corte vertical “AB” efetuado sobre o campo da refletividade (painel da direita, em cima), com indicação de refletividade com elevada magnitude (59 dBZ) e assinatura de bigorna. Corte vertical “AB” efetuado sobre o campo da classificação do tipo de hidrometeoros e indicação da presença de gotas de grande dimensão (painel da direita, em baixo). Radar de Arouca/PG, 16:10 UTC, 24 Abril 2021.

    Fig 2 - Imagem de PPI de refletividade (em dBZ), baixa elevação, com indicação do segmento de corte orientado “AB” efetuado (painel da esquerda). Corte vertical “AB” efetuado sobre o campo da refletividade (painel da direita, em cima), com indicação de refletividade com elevada magnitude (64 dBZ). Corte vertical “AB” efetuado sobre o campo da classificação do tipo de hidrometeoros e indicação da presença de granizo de grande dimensão (painel da direita, em baixo). Radar de Arouca/PG, 16:30 UTC, 24 Abril 2021.

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    Fonte: IPMA
     
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  8. Thomar

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    Já saiu o boletim climatológico referente ao mês de Abril pelo IPMA:

    RESUMO MENSAL
    O mês de abril de 2021, em Portugal continental, classificou-se como muito quente em relação à temperatura do ar e normal em relação à precipitação (Fig. 1). O valor médio de temperatura média do ar, 15.01 °C, foi +1.85 °C superior ao valor normal 1971-2000. Valores de temperatura média do ar superiores aos agora registados ocorreram em 15 % dos anos desde 1931.

    O valor médio de temperatura mínima do ar, 9.76 °C, foi o 10º mais alto desde 1931 (mais alto em 1945: 11.18 °C), com uma anomalia de +1.63 °C. O valor médio de temperatura máxima do ar, 20.25 °C, também foi superior ao valor normal, +2.07 °C e foi o 5º mais alto desde 2000 (mais alto em 2017: 23.27 °C).

    Durante o mês verificaram-se valores médios diários de temperatura do ar (mínima, média e máxima) quase sempre superiores ao valor médio mensal, sendo de realçar os seguintes períodos:  temperatura máxima: 3 a 9, 14 e 20, 22 a 27;  temperatura mínima: 9 a 11, 13 a 16 e 19 a 28.

    O valor médio da quantidade de precipitação em abril, 82.5 mm, foi muito próximo do valor normal 1971- 2000 correspondente a 105 %, verificando-se contrastes importantes na distribuição espacial. Em geral, nas regiões do Norte e Centro os valores de precipitação foram superiores ao normal e no Sul foram inferiores; em particular, no Algarve a percentagem de precipitação foi inferior a 50% do valor médio. De destacar ainda durante o mês a ocorrência de aguaceiros, por vezes, de granizo e acompanhados de trovoada por todo o território, sendo localmente fortes nos períodos 8-10, 13-16 e 23-28, este último período foi devido à depressão LOLA. D

    e acordo com o índice PDSI no final de abril verificou-se um aumento da área e da intensidade da seca meteorológica na região Sul, sendo de realçar a região do Algarve em seca moderada. A distribuição percentual por classes do índice PDSI no território é a seguinte: 5.8 % chuva fraca, 74.7 % normal, 11.9 % seca fraca e 7.6% seca moderada.
     
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  9. frederico

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    As contas fazem-se no final mas no Sotavento algarvio estamos perante a Primavera mais seca desde 2005.

    Aquela depressao que no Inicio de Dezembro esteve prevista para o Sul e desviou para Marrocos onde deixou mais de 100 mm teria feito toda a diferenca no ano hidrologico, barragens e aquiferos.

    Realco que o Valor de acumulado total para VRSA nao e real pois a estacao nao registou dados em Dias muito chuvosos. Lamento que o IPMA nao alerte para Este facto, e um erro grave. Devem estar 70 a 100 mm em falta. Cacela, a 12 Kms, tem 439 mm acumulados ate Marco.
     
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  10. "Charneca" Mundial

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    Sim, e os valores de Castro Marim também não estão corretos porque a estação não registou dados na hora de maior precipitação no dia 5 de fevereiro, altura em que o acumulado foi superior a 30 mm vendo por estações à volta. Também em janeiro a estação acumulou muito menos do que estações à volta, exatamente por causa desse problema... :rolleyes:
     
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  11. trovoadas

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    O ano é seco em praticamente todas as estações do Algarve! Só Novembro fez a diferença e mais a sotavento. Fevereiro foi muito variável. Ainda assim foi o melhor ano desde 2017 e ainda assim abaixo da média o que diz bem da crise que atravessamos.
    Domingo 16 de Maio fui dar uma volta ao interior do Caldeirão e está tudo praticamente seco. O Vascão é um fio de água ! Isto a 16 de Maio. Ainda agora começou a fazer calor...
     
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  12. StormRic

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    Maio com uma marcada dicotomia Noroeste/Sueste quanto à precipitação no continente:

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    Nos oito primeiros dias de Maio não houve acumulados significativos (valores de 0,1 a 0,5 mm em algumas estações, dispersas pelo Norte e Centro, em especial litoral).
     
    #72 StormRic, 20 Mai 2021 às 15:13
    Última edição: 20 Mai 2021 às 15:21
  13. algarvio1980

    algarvio1980
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    Queda de granizo e saraiva na Beira Alta e Trás-os-Montes

    Em Portugal continental é possível observar-se a queda de granizo envolvendo pedras de razoável dimensão (designado por “saraiva”, se apresentarem diâmetro superior a 0,5 cm) em dias com temperatura do ar elevada, fenómeno que é pouco intuitivo mas de explicação científica relativamente simples. Foi o que se verificou na passada 2ªf, dia 31 de maio, durante a tarde e início da noite em alguns locais das regiões da Beira Alta e, especialmente, de Trás-os-Montes. Efetivamente, naquelas regiões e durante aquele período, foi observada abundante precipitação sob a forma de granizo e saraiva, sendo por vezes identificadas pedras com diâmetro claramente superior a 3 cm.

    Ao longo do dia um núcleo depressionário centrado sobre a península Ibérica deslocava-se para norte. Sobre o Atlântico, a oeste da costa portuguesa, uma depressão do tipo cut-off, também designada por “gota fria” (depressão com expressão essencialmente em níveis altos e caraterizada pela circulação de ar mais frio em torno do núcleo do que o ar das suas vizinhanças) intensificava-se. Durante a tarde o aquecimento radiativo era intenso e a temperatura máxima do ar aproximou-se e, em muitos casos, excedeu, o valor de 30°C, em particular nas Beiras e Trás-os-Montes, sendo os valores de humidade relativa do ar geralmente baixos (inferior a 30% em alguns locais). No entanto, a coexistência de ar frio em altitude, transportado na circulação da referida cut-off, e de ar quente nos níveis inferiores da troposfera, potenciado pelo referido aquecimento radiativo, favoreceu condições de grande instabilidade atmosférica. Esta, segundo o modelo do ECMWF (Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo) traduzia-se, em alguns locais, por valores de CAPE superior a 1500 J/kg no período 15-18 UTC (16-19, hora local).

    Os valores de água precipitável eram moderados, da ordem de 20-25 mm e o nível da isotérmica de zero era bastante elevado, situando-se a cerca de 3700 m de altitude. Na camada 0-6 km os valores de wind shear vertical (variação da magnitude e rumo do vento horizontal ao longo da camada vertical) não eram extremos mas asseguravam, apesar de tudo, alguma inclinação das células convectivas e projeção das respetivas bigornas no sentido do quadrante norte, conforme confirmado com observação radar (Fig 1). Por outro lado, quer as indicações do ECMWF, quer as observações com radar, confirmavam a presença, durante a tarde, de um fluxo de oes-sudoeste abaixo dos 1500 m de altitude, proveniente do Atlântico, que se intensificava e rodava para sul acima deste nível. Este escoamento de ar húmido aos níveis baixos alimentava as células convectivas que, com a instabilidade disponível até níveis bastante elevados, da ordem de 14000 m de altitude, se iam formando. A proximidade, a noroeste, de uma corrente de jato em níveis muito elevados favorecia divergência em altitude contribuindo, também, para manter a continuidade do processo convectivo até esses níveis.

    Este quadro de grande instabilidade atmosférica, com particular magnitude em camadas extensas acima do nível da isotérmica de zero, garantiu movimentos ascendentes fortes a esses níveis, potenciadores do brusco arrefecimento da água transportada, mediante a contínua disponibilidade de humidade em níveis baixos. Por si só, este contexto é suficiente para explicar a formação de granizo, em sentido lato. No entanto, a formação de pedras de gelo com grande dimensão (saraiva) e a sua relativa abundância ficaram a dever-se a um fator suplementar: um perfil vertical de vento eficaz. De facto, para que as pedras de granizo formadas entrem em ciclos de crescimento prolongado em níveis muito elevados da troposfera é necessário, por um lado, que o wind shear seja suficientemente forte para manter as correntes ascendentes e descendentes relativamente separadas (de modo a assegurar que o processo convectivo seja duradouro) mas, por outro, que não seja excessivamente forte a ponto de as referidas correntes perderem o contacto, caso em que o granizo precipitaria pouco após a sua formação, não tendo tempo suficiente para crescer.

    O radar de Arouca/Pico do Gralheiro (A/PG) permitiu efetuar a monitorização detalhada de múltiplas células convectivas geradoras de granizo e saraiva, de que se apresenta um exemplo ocorrido próximo de Vila Real (Fig 1). Na imagem de corte vertical das 17:00 UTC (18:00, hora local) o radar permitiu identificar valores de refletividade (Z) acima de 58 dBZ a grande altitude (cerca de 5000 m), sendo inclusive observável refletividade que se destaca a 15000 m de altitude, claramente acima do nível geral dos topos observados. Estes factos demonstram a presença de correntes ascendentes muito vigorosas. É também visível (Fig 2) que na região do núcleo convectivo, em imagem de corte vertical, os hidrometeoros foram classificados como granizo e graupel (esta última classe correspondente, na presente classificação de hidrometeoros, a graupel propriamente dito mas também a granizo de pequeno diâmetro). Estas observações refletem a presença de pedras de granizo de grande dimensão em níveis elevados. Não obstante a temperatura do ar ser elevada, junto ao solo, pouco antes de a queda de granizo e saraiva serem observadas, o transporte rápido de ar frio, descendente, que acompanha a precipitação deste tipo de hidrometeoro, permitiu que uma fração razoável das pedras tenha alcançado a superfície sem ter derretido e ainda com dimensão apreciável, conforme a realidade observada no solo e que foi documentada em muitos locais da região durante a tarde do dia 31 de Maio.

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    Imagem de PPI de refletividade (em dBZ), baixa elevação, com indicação do segmento de corte orientado “AB” efetuado (esquerda). Corte vertical “AB” sobre o campo da refletividade (direita), assinalada refletividade com elevada magnitude (> 58 dBZ) a círculo e assinatura de bigorna. Sobre a região indicada com maior refletividade destacam-se topos de refletividade acerca de 15000 m de altitude. Radar de Arouca/PG, 17:00 UTC, 31 Maio 2021.


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    Imagem de PPI de refletividade (em dBZ), baixa elevação, com indicação do segmento de corte orientado “AB” efetuado (esquerda). Corte vertical “AB” sobre o campo da classificação do tipo de hidrometeoros (direita) e indicação da presença de granizo (a vermelho) e de graupel (incluindo granizo de menor dimensão, a cor salmão). Radar de Arouca/PG, 17:00 UTC, 31 Maio 2021.

    https://www.ipma.pt/pt/media/notici.../noticias/textos/Queda_de_granizo_31maio.html
     
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    Já saiu o boletim referente ao mês de maio:

    Resumo:
    O mês de maio de 2021, em Portugal continental, classificou-se como quente e muito seco.
    O valor médio de temperatura média do ar, 16.20 °C, foi +0.47 °C em relação ao valor normal 1971-2000. O valor médio de temperatura mínima do ar, 9.75 °C, foi o 3 º mais baixo desde 1931 (mais baixo em 2013: 8.84 °C), com uma anomalia de -0.74 °C. O valor médio de temperatura máxima do ar, 22.64 °C, foi superior ao valor normal, +1.68 °C; valores de temperatura média do ar superiores aos agora registados ocorreram em 30 % dos anos desde 1931.
    Durante o mês verificou-se alguma variabilidade dos valores médios diários de temperatura do ar em particular da temperatura média e máxima, sendo de realçar o período de 25 a 31 de maio com valores médios no continente ≥ 25 °C. Em relação aos valores diários da temperatura mínima do ar foram quase sempre inferiores ao valor médio mensal, sendo de realçar o período de 1 a 14 de maio; nos últimos 6 dias do mês verificou-se uma subida da temperatura. O valor médio da quantidade de precipitação em maio, 32.8 mm, foi inferior ao valor normal 1971- 2000, correspondendo a 46 %. Durante o mês verificou-se a ocorrência de precipitação entre os dias 9 e 13 em quase todo o território e nos dias 15 a 18 e 23 e 24 nas regiões do Norte e Centro. De salientar no dia 31 de maio, na região nordeste do território, a ocorrência de aguaceiros fortes, queda de granizo e trovoada.
    De acordo com o índice PDSI no final de maio verificou-se um aumento da área em seca meteorológica assim como da intensidade na região Sul. As regiões do Baixo Alentejo e Algarve estão na classe de seca moderada com alguns locais em seca severa. De salientar também a região nordeste na classe de seca fraca. A distribuição percentual por classes do índice PDSI no território é a seguinte: 2.1 % chuva fraca, 55.4 % normal, 26.4 % seca fraca, 14.6 % seca moderada e 1.5 % em seca severa.

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    Ontem, 2021/06/24, já algum calor no Ribatejo e Alentejo com temperaturas máximas acima de +35ºC

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