Mário Barros
Furacão
O funil demográfico
Este será provavelmente o ano em que menos gente nasceu em Portugal desde 1900. Como outros países europeus, entrámos num funil demográfico. Seremos cada vez menos e cada vez mais velhos. Que dizer (ou fazer) a esse respeito?
Há uns dias, antecipando o regresso desta coluna, alguém me recomendava caridosamente que não gastasse tempo com coisas efémeras. Nada de comentar casos, contradizer declarações, especular sobre campanhas. O que convinha era "ir ao fundo" e analisar as causas e consequências do que verdadeiramente importa. Muito bem: sinto-me na obrigação de experimentar.
Deparo-me logo com uma dificuldade. O que é que, de facto, é fundamental? Talvez o desequilíbrio das contas públicas e a estagnação económica. Mas não haverá algo de ainda mais básico? Para alguns, serão as alterações climáticas. E porque não, já agora, as alterações demográficas? Apreciemos isto: este será provavelmente o ano em que menos gente nasceu em Portugal desde 1900. Como outros países europeus, entrámos num funil demográfico. Seremos cada vez menos e cada vez mais velhos. Que dizer (ou fazer) a esse respeito?
Muita gente julga perceber o clima e pretende até corrigi-lo. Em relação à população, somos geralmente mais discretos. Talvez porque, tal como foi fácil à esquerda virar as alterações climáticas contra o "liberalismo económico", também não parece difícil à direita pendurar as alterações demográficas ao pescoço do "liberalismo moral", o que já fica para lá dos limites da correção política oficial. Por essa ou outra razão, a demografia tem suscitado a prudência e a contenção que a meteorologia talvez também merecesse.
Há, de resto, teorias para todos os gostos. O que significará, para o nosso modo de vida, uma população mais pequena e envelhecida? A nossa Segurança Social, que sempre esperou ver mais jovens do que velhos, parece uma vítima óbvia. No Japão, há quem ligue declínio demográfico e estagnação económica. É por acaso que Portugal, a Espanha, a Itália e a Grécia sofrem da mesma conjugação de inércias? Confiou-se na imigração para compensar. Mas não funcionará muito mais tempo. Para o clima, há planos definidos. Mas, para a população, será possível ou suficiente desviar recursos da proteção da velhice para incentivar a natalidade?
Lidamos aqui com enredos que ninguém percebe bem. Na década de 1970, temíamos uma nova idade do gelo e a explosão populacional. Trinta anos depois, atormentamo-nos com o aquecimento global e a regressão demográfica. Quando é que tínhamos razão? Antes da Segunda Guerra Mundial, também houve um pânico na Europa acerca do decrescimento da população. Nessa altura, nascimentos significavam soldados. A Rússia comunista proibiu o aborto, o Portugal salazarista criou o "abono de família" (primeiro para os funcionários públicos, como seria de esperar entre nós). Nada deu resultado que se visse. Veio a guerra, e a seguir, imprevistamente, o célebre baby boom, que durante vinte anos sustentou o medo malthusiano da proliferação.
E se as coisas profundas também forem, à sua maneira, superficiais? Não em si, mas pela nossa impossibilidade de descer ao fundo, de compreender e manipular tudo? Hamlet já tinha avisado Horácio acerca do alcance da sua ciência. Talvez seja mais seguro escrever sobre a negociação do orçamento.
Expresso


