Voltando à questão do analfabetismo.
Vince tens toda a razão em relação ao plano de alfabetização dos anos 40 e 50, mas eu li textos de pessoas do Regime, dos anos 30, a favor do analfabetismo do povo. As citações estão naquele livro Os Donos de Portugal. Pelo menos parte do Regime nos anos 30 não foi grande defensor da alfabetização do povo.
Quanto à nossa economia, agora começa-se a fazer o que deveria ter sido feito após a Segunda Guerra. Ora vejamos.
Antes do 25 de Abril havia algumas boas empresas, como sucedia, por exemplo, na área da construção naval.
Contudo, em termos gerais, a maioria das empresas produziam com pouco valor acrescentado, para o mercado interno e para as colónias. Não tínhamos grandes marcas que fossem conhecidas no estrangeiro, ao contrário dos italianos, franceses, suícos, ingleses...
Os empresários portugueses eram avessos à inovação, gostavam de vender caro o que valia pouco, salários baixos, mercado protegido da concorrência internacional...
Agricultura moderna ao estilo do que já se fazia em Israel ou na Califórnia, União Soviética e mais tarde Espanha não havia por cá.
Com a entrada na EFTA as coisas melhoraram graças ao investimento estrangeiro, afinal éramos um país seguro, o Regime era estável, impostos baixos e salários baixos.
O PREC estragou o pouco que havia.
Antes do PREC o nosso PIB per capita era para aí metade do espanhol e metade do grego, ou seja, éramos mesmo e de longe a cauda da Europa. Não sei qual era então o PIB da Irlanda, mas em termos dos 4 grandes do Sul, Portugal estava mesmo no fim da lista.
No turismo o atraso era de décadas em relação aos gregos, franceses, espanhóis e italianos, apesar do Regime ter feito alguma coisa para que o Algarve se tornasse um destino de sol e mar, com a abertura do aeroporto Internacional em Faro e alguns projectos urbanísticos, como o projecto de Monte Gordo dos anos 40.
Nos anos 80 começa a vigorar a moda da agricultura nunca mais, indústria nunca mais, e depois do PREC vem outra avalanche de destruição e abandono do pouco que havia.
Entretanto dois sectores que já eram fortes e algo desmesurados no Estado Novo explodem, construção civil e obras públicas e comércio e serviços.
Nos anos 90 em vez de se formarem pessoas para uma reabilitação da agricultura e indústrias tradicionais formam-se licenciados que o país não precisa e que acabam por emigrar quando o mercado de trabalho satura.
Agora com a crise depois de rebentarem as bolhas do Estado, cimento e serviços já se começam a ver melhorias, que são extraordinárias em alguns sectores.
Recordo-me que há 10 anos não se via vinho português em Londres, além claro do vinho do Porto, mas havia com fartura vinho da África do Sul, do Chile ou da Califórnia, e também da Austrália.
Mas nada está garantido, um Ministro sugeriu que se exportassem pastéis de nata e foi gozado. Ora se os outros exportam chocolates, donuts ou muflins, por que não haveremos de exportar a nossa doçaria, que até é bem original à escala mundial?
As elites que comem do Regime são, hoje como no passado, preguiçosas, pouco inteligentes, corruptas. Querem rendas garantidas, pagas pelo povo via impostos e via monopólios e oligarquias. São avessas à mobilidade social e são hipócritas.
Contudo por outro lado ainda temos pessoas com iniciativa e força de vontade, inteligência e know-how em alguns sectores para levantar a economia. Há imensos produtos para dar a conhecer lá fora, para exportar. Devemos divulgar as mantas de Castelo Branco ou os tapetes de Arraiolos, as cerâmicas de Caldas da Rainha, os móveis do Norte, os doces conventuais, os produtos agrícolas, a nossa arquitectura tradicional. É preciso falar com artesãos que ainda saibam trabalhar a madeira ou os metais.
Com mais de 50 anos de atraso em relação ao Norte de Itália ou 30 em relação a Espanha estamos a começar algo...
Mas os portugueses não podem deixar que o poder político estrague tudo!