Como é que se resolve o problema do crescimento económico?
Este é um problema da União Europeia e é complicado. A questão é que já não é possível, neste momento, gastar mais dinheiro, até porque as nossas abébias para promover o desenvolvimento não promoveram desenvolvimento coisa nenhuma, foram simplesmente para os bolsos dos do costume. Os EUA mostraram como é que isto se resolve. Temos de fazer estímulos de curto prazo e uma reestruturação brutal a médio/longo prazo que convença as pessoas de que estamos a olhar a sério para o défice e que queremos mesmo ter um défice que consigamos pagar, ou seja, zero. Só que estamos numa recessão ou a sair de uma recessão, queremos gastar algum dinheiro razoavelmente. Ninguém acredita em Portugal. O máximo era 3%, conseguimos, com um esforço, chegar a 4% e, como é óbvio, já estávamos a pedir 4,5%. Isto mostra que não fazemos a mais pequena ideia de qual é o problema. Em Portugal, ninguém está interessado em ter um Estado que consiga pagar. Mas é absolutamente indispensável, porque ninguém nos vai pagar o Estado que temos.
Como é que ficamos?
O que era absolutamente indispensável era ter juízo. O que a troika está a dizer não é estúpido, é essencial, e até devíamos fazer mais, porque a Alemanha não tem nenhuma responsabilidade de nos pagar. Nem os alemães, nem os franceses, nem ninguém, temos de ser nós a fazê-lo. E aqueles que são muito amigos do Estado, dos funcionários públicos, dos pensionistas, deviam ser os primeiros a querer ver isto feito. O governo muda daqui a poucos meses e vai à vida dele, nós ficamos cá, os contribuintes ficam cá sempre. Esta é a quinta emergência orçamental que temos nos últimos anos. O eng.º Guterres teve uma em 99 e fugiu, Durão Barroso teve outra em 2003 e fugiu, Sócrates teve outra em 2005 e fugiu, e já vamos na quinta. Isto de ir de estupidez em estupidez até à catástrofe final… Todos disseram que ia ser duro, mas que agora é que ia ficar resolvido. Não ficou e não se fez a reforma da Segurança Social, não se fez a reforma da administração pública, não se puseram as coisas no caminho da sustentabilidade.
O que é que está a travar a economia, além da falta de dinheiro?
A economia ficou completamente entupida porque nós arranjámos fiscais para tudo e mais alguma coisa, inventámos impostos para tapar todas as possibilidades, queimámos a galinha dos ovos de ouro. É evidente que a melhor maneira de proteger a língua portuguesa é não se falar. Os fiscais da ASAE e de todos esses organismos estão montados para este propósito. Eu já fui director da biblioteca aqui da Católica e sei que a melhor maneira de proteger os livros é não os emprestar aos alunos, mas isso é muito estúpido. E nós estamos um bocadinho nisto, em boa parte pelo seguidismo da UE e de directivas que são feitas para países muito mais ricos do que nós, mas que temos de adoptar. No final, cumprimos todas aquelas regras e matamos a economia. Depois há outro problema: amamos as pequenas empresas mas, quando elas começam a crescer e passam a médias, pimba! Punimos o sucesso económico.
Sobre as medidas anunciadas por Mario Draghi, são suficientes?
O BCE tem uma tarefa simples: aguentar o euro. E é o que tem feito. Anestesiou o problema, com taxas de juro baixas, para permitir a cirurgia, mas a operação, as reformas estruturais têm de ser feita pelos governos. O que assusta é quando, de um momento para o outro, as taxas de juro começarem a subir e a inflação começar a subir. Todos os governos que andaram a brincar vão estar completamente atulhados. Não sei se conhece algum aqui próximo que esteja nessas condições.
Que esperança tem na nova equipa ou equipas europeias, a começar pela Comissão?
A Comissão Europeia não existe até Delors e desde aí. Tem influência e pode estragar muito; fazer já é mais difícil. Mais uma vez escolheram uma nulidade, porque é evidente que não querem alguém com influência. Tem de ser pequenino e simpático, mas pouco interventivo, como o Juncker.
Sobre a proposta de a Alemanha ter direito de veto?
A Alemanha é a maior economia, não pode ter o peso do Luxemburgo, que é igual a Odivelas. É a Alemanha que paga esmagadoramente o dinheiro, tem um peso enorme em termos económicos; se não tiver mais influência que Portugal não é justo, não é razoável. Se há alguma coisa de que a Alemanha se pode queixar é de falta de influência, não é de excesso. Proporcionalmente, Portugal ou o Luxemburgo têm uma influência escandalosamente superior. Resmungam porque a Alemanha manda nisto? A Alemanha paga isto.
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