Esse rapaz fez exame nacional para conseguir ingressar no ensino superior, se teve uma excelente nota no exame nacional para ter conseguido 20 de média de ingresso é porque deve ter algum mérito.
No ingresso para o ensino superior a média interna vale 50 a 65%, os restantes 35 a 50% dependem da nota de um ou dois exames nacionais, com excepção da Medicina, em que se utiliza a nota de 3 exames nacionais.
Este sistema é altamente injusto, e deveria ter um ponto final. Passo a explicar porquê.
Em primeiro lugar, os critérios de avaliação individual variam de professor para professor. Há professores que fazem testes mais fáceis que outros, alguns são mais benevolentes na hora de corrigir, no final do período uns avaliam apenas tendo em conta os conhecimentos, outros dão mais importância à participação do aluno na aula. Depois, cada escola tem a sua própria política educativa. Por exemplo, há escolas que são conhecidas por «dar boas notas». Assim, quando comparamos médias internas de alunos, estamos a cometer uma enorme injustiça, pois colocamos lado a lado jovens que foram avaliados de forma totalmente distinta.
Por causa desta deficiência do sistema, algumas escolas especializaram-se em dar médias internas notoriamente altas. Estas escolas são especialmente procuradas pelos jovens que querem ingressar em Medicina. Uma dessas escolas fica cá no Porto, e chega a colocar 100 alunos por ano em Medicina e Medicina Dentária. Os testes são fáceis, e não raras vezes um aluno que obtenha média de testes 16 ou 17 tem 20 no final do ano. Para além disso, é dada uma preparação especial para o exame nacional, e praticamente todos os alunos desta escola privada têm explicadores no 12.º ano, dos melhores especialistas do país na preparação para o exame nacional.
Conclusão: quem tem dinheiro para pagar o colégio certo, e os explicadores certos, ou quem tem conhecimentos para estudar na turma certa, na escola secundária certa, tem a vida facilitada no acesso a cursos de média elevada, como Medicina ou Arquitectura.
Quando eu frequentei o ensino secundário no Algarve, não raras vezes tinha média de testes de > 195, 190 ou 180, e terminava com 19, 18 ou 17, ou seja, um valor inferior à média de testes, porque «não participava nas aulas». Para além disso, fui enviado para exame nacional com os programas de Matemática, Biologia, Química e Português por terminar.
Visto isto, defendo que a média interna deve ser excluída do acesso ao ensino superior. O acesso deve ser feito por exames específicos de acesso ao ensino superior, acessíveis a todos os que tenham terminado o 12.º ano com aproveitamento. Esses exames devem ser bem feitos, em colaboração com professores universitários e sociedades científicas, e devem ser preparados ao longo de um ano, para evitar erros, tão comuns nos nossos exames nacionais. Para cada exame, o aluno deve ter duas chamadas, para prevenir que por algum azar o aluno não possa ingressar no curso que pretende naquele ano lectivo. Com este sistema, o aluno faria um conjunto de mais de 5 exames: um a Literatura Portuguesa, outro a Língua Estrangeira, e três ou quatro relativos ao curso a que se candidata. Por exemplo, para candidatos a Bioquímica, Farmácia, Medicina ou Biologia os alunos poderiam ser avaliados a Literatura Portuguesa, Inglês, Matemática, Biologia, Química e outra disciplina à escolha da universidade (Física, Psicologia ou Antropologia).
Este tipo de sistema já existe noutros locais. Por exemplo, um aluno que se candidate ao ensino superior em Espanha submete-se à Selectividad, um conjunto de exames onde são avaliados a várias disciplinas, com programas mais exigentes que os programas portugueses. Não sei como está agora o sistema, mas há uns anos o aluno poderia optar por se candidatar apenas com as notas dos exames de selectividad. E em Inglaterra há os famosos A levels.
O actual sistema de acesso não pode continuar, é imoral. Alunos dos colégios e liceus públicos conhecidos por serem benevolentes na hora de avaliar concorrem lado a lado com alunos provenientes de escolas com métodos de avaliação que prejudicam aqueles que querem concorrer ao Ensino Superior.