por ANDRÉ MACEDO
Os portugueses (do continente) detestam as dívidas da Madeira como os alemães detestam as dívidas de Portugal. Dívidas são dívidas: compreendemos as nossas, grandes ou pequena, sensatas ou estúpidas. No entanto, desprezamos as dos outros por causa desse facto elementar: são dos outros e os outros, que o Diabo os leve, são por natureza gastadores e calões.
Já sei que Passos não é Jardim e que isso faz toda a diferença. Talvez faça, mas para quem observa de fora e não liga a essa insignificância geográfica, o primeiro-ministro português é só um pouco melhor do que o grego. São ambos maus parceiros do euro. Se fosse possível fazer já uma "parceiroctomia" - corte definitivo de Portugal e Grécia da UE -, julgo que a maioria dos alemães não hesitaria. Não digo que fariam bem, apenas que o fariam de olhos fechados.
Resta-nos, portanto, uma alternativa: sermos nós a abrir os olhos. E é aí que chegamos às obrigações europeias - os títulos de dívida que permitiriam repor a aparência que a crise destruiu. Ora bem, num contexto de eurobonds, Portugal e todos os endividados da Zona Euro beneficiariam outra vez da reputação e dos juros suaves que a Alemanha se esforçou por ter. Seria extraordinário: depois da tempestade que estamos a viver, voltaria finalmente a "normalidade".
Como é evidente, os nossos sonhos são os pesadelos de Angela Merkel. Além do óbvio - os alemães não quererem ser co-responsáveis pelas nossas dívidas -, há mais uma justificação. As obrigações europeias, apesar de receberem um rating AAA por terem a Alemanha como motor/fiador, não valeriam o mesmo que valem as bunds (obrigações) alemãs. Teriam um juro um pouco mais alto, porque nem todos os activos seriam "Made in Germany". Se a BMW fosse "portuguesa, não seria a mesma coisa, pois não?
Por que razão haveria então a Alemanha de aceitar este negócio que lhe encarece a vida e implica mais riscos? Porque a Alemanha é quem mais ganha em navegar no mercado único e porque beneficia de uma moeda menos cara do que seria, hoje, o marco? Sim, é verdade; mas também é verdade que todos os 17 países que fazem parte do euro ganharam muito com a moeda única. Vá à janela e confirme. Na verdade, se olharmos com atenção, vemos que até há pouco só havia vencedores na Zona Euro. Chegou o momento dos perdedores - chega sempre. Se os alemães perderem a segurança que têm para proteger o projecto europeu, a Portugal não resta senão perder autonomia económica e financeira. Não há outra solução. Acabou--se o fiado: somos os madeirenses da Europa.
* Director do Dinheiro Vivo