Curiosidade: sabiam que os ascendentes de muitos dos actuais esquerdistas lusitanos eram misóginos e odiavam a Rainha D. Amélia pela sua importância enquanto figura feminina de relevo da nossa sociedade?
Os "esquerdistas" são homossexuais... o resto é um salve-se quem puder...
«Ainda que o amor de Pedro e Inês seja o mais inspirador do reino de Portugal, as dinastias Afonsina e de Avis são ricas em episódios memoráveis. Relações incestuosas como a de D.Fernando com a sua meia-irmã D.Beatriz; infanticídio, como o próprio terá praticado, afogando no colo da ama o recém-nascido fruto do adultério da rainha; casamentos reais com mulheres já casadas porque o desejo ou as razões de Estado a isso obrigam; casos de bigamia como o de D.Afonso III que resolve casar-se com duas mulheres ao mesmo tempo, para além de ter de gerir pelo menos onze amantes e muitos filhos bastardos; raptos de amantes e de rainhas; desavenças conjugais pitorescas, como a da rainha Santa Isabel que gostava de ‘dar flagrantes’ ao seu esposo D.Dinis; histórias de crimes brutais por desconfiança de traição amorosa; pedidos ao papa de ‘dispensa de parentesco’ porque a segurança do reino fala sempre mais alto e antes casar com um primo do que pôr cá dentro um estrangeiro; reis que roubam a noiva ao filho; casamentos com uma madrasta viúva para poupar no dote quando os cofres do reino enfrentam um vazio financeiro; e claro, muitas outras histórias de maridos extremosos e monogâmicos.
Facto importante a registar durante as primeiras dinastias é que, salvo raras excepções, os reis assumem a paternidade dos seus filhos bastardos, educam-nos muitas vezes em conjunto com os filhos legítimos e reservam-lhes importantes funções no reino ou ‘bons’ casamentos com famílias poderosas. As amantes terão também o seu futuro acautelado, recebendo herdades, vilas e doações em dinheiro.
Tudo isto no livro recentemente editado pela Esfera dos Livros, Amantes dos Reis de Portugal, da autoria de Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni, três historiadoras que deixaram bem expresso nas primeiras linhas do texto que o seu exercício não se destina a ser ‘frívolo, anedótico ou voluptuoso’. Que fique também esclarecido, ainda que aqui e por razões de espaço se retire apenas o ‘sumo’ à História, que o trabalho das autoras está devidamente esplicado e contextualizado e só a leitura do livro pode dar a perspectiva realmente justa de como se conciliam os imperativos políticos com estas histórias de amor e luxúria seculares.
Salte-se, mais uma vez por razões de espaço, as primeiras dinastias e os Filipes e estamos na dinastia de Bragança, iniciada por um filho bastardo. D.João IV não terá sido homem de grandes aventuras, sabe-se no entanto que muitos dos seus encontros amorosos tinham por alcova o coche real e que tinha predilecção por mulheres de baixa condição social. Por uma razão nobre, entenda-se, já que o seu lugar no trono estava pendente do apoio dos nobres e não podia arriscar-se a macular a honra de uma filha ou esposa da nobreza. Teve uma filha bastarda de uma ‘criada de varrer’, nunca a quis conhecer mas já moribundo escreveu-lhe uma carta e fez-lhe várias doações em testamento, trazendo à filha o reconhecimento póstumo como infanta.
O rei pornografado
Situação dramática do costume, morre o primogénito que lhe tomaria o lugar e só resta D.Afonso VI, que logo aos três anos sofre de uma doença que deixa sequelas irreversíveis. É talvez o rei mais humilhado da nossa História, o seu sexo é escrutinado e descrita a sua topografia e performance em todo o pormenor. Apesar da predilecção que revela pelas freiras do Convento de Odivelas (tal como já acontecera com D.Dinis e que, no saldo final, parece ser o local preferido dos monarcas portugueses para as suas realíssimas líbidos), apesar ainda da sugestão de que terá tendências homossexuais por alimentar uma relação priveligiada com um comerciante genovês, a quem dá alojamento no paço num quarto contíguo ao seu, e apesar de todo o tipo de diligências (assistidas e comentadas) para que o rei consiga o seu objectivo intra vas, parece que o rei se descontrola sempre extra vas. Relatos contam que chega a chorar por o obrigarem a dormir na cama com uma senhora, ‘pois o constrangiam a fazer o que ele não podia obrar’. O imperativo de dar um sucessor ao reino é tal, que o assunto extravassa também a intimidade da casa para ser descrito e testemunhado por todo o tipo de gente, de médicos a uma série de mulheres que lhe são enviadas para tentar a proeza de fazer vistoria aos seus órgãos sexuais. Visto que a mulher com quem se casa, D.Maria Francisca Isabel de Sabóia, pede a anulação do matrimónio por incapacidade do monarca e o processo exige que se averigue, os testemunhos atinguem o cúmulo da sordidez. Joana Tomásia, Jerónima Pereira, Isabel de Oliveira e outras tantas deitam-se na cama com Sua Majestade, para concluir por A+B que é tal a impotência de D.Afondo VI que ‘não é para ter ajuntamento com mulher alguma’, como se diz pela cidade. Descrevem com minúcia e depreciação o desenho, tamanho e aparência do seu membro nada viril e como sem virilidade não há poder. Afonso VI, já sob prisão, acaba por assinar a confissão da sua impotência, convencido de que assim conquistará a liberdade. Quatro em um, o irmão D.Pedro, mais dotado pela natureza, lá consegue ser jurado príncipe herdeiro e regente do reino, casando-se nem mais nem menos com a mulher do irmão, a quem interessa igualmente manter o estatuto de rainha, e não tendo assim de devolver-se o seu dote a França, já entretanto gasto a custear guerras. D.Afonso VI é enviado para o desterro em Angra do Heroísmo e mais tarde encerrado no Palácio de Sintra onde morre, diz-se que louco.
Depois de usurpar o trono e a mulher ao irmão, D.Pedro II espalha democraticamente os seus dotes viris entre dois casamentos e amantes impossíveis de contabilizar, a quem demostra os seus préstimos, evidentemente intra vas. A primeira amante, logo aos 15 anos, pede os serviços de uma feiticeira para que ele ‘não se aparte da sua amizade’, acabando o assunto a ser tratado pelo Tribunal da Inquisição. Segue-se uma freira de Odivelas, uma rameira que conheceu num bordel e a quem ‘pôs casa’, uma ‘moça de varrer’ de quem frutificou uma bastarda (a quem D.Pedro conseguiu que se tratasse como ‘Sua Alteza’), várias cortesãs que a rainha, despeitada, vai expulsando do paço, uma lavadeira e, pelo caminho, vários filhos bastardos que convivem com os irmãos legítimos e que o rei obriga a serem igualmente tratados por ‘Sua Alteza’. Para além de ter o costume de sair à noite para estar com prostitutas, sabe-se que gosta também de negras e mulatas e que entre a sua imensa prole tem pelo menos um filho de ‘cor parda’ que virá a ser frade.
D.João V, o campeão olímpico que se lhe segue na linha sucessória, assediava de tal modo as mulheres que chegou a montar-se guarda às câmaras e a tentar várias medidas e regulamentações para contolar a circulação no paço. Muitíssimo generoso em amantes e nas somas avultadas e presentes que lhes dá, aproveita a época de riqueza no reino para dar lagas à sua extravagância. É também a época áurea de regabofe no Convento de Odivelas. Frades, padres, fidalgos, poetas e músicos são visita assídua às freiras. Deste convento saem também os três filhos bastardos reconhecidos por D.João V, ‘os meninos da Palhavã’ (porque foram educados no palácio onde é hoje a Embaixada de Espanha), todos eles filhos de freiras diferentes, sendo preferida a madre Paula, que já era amante do conde de Vimioso e a quem o rei teve de dar em troca duas outras freiras, para ficar com Paula para si. Ao contrário do que aconteceu com as outras mulheres, a esta não deixou depois do parto, proporcionando-lhe a ela e à sua família alto bem-estar económico. Famoso pela imaginação com que delapida os cofres do reino, constrói-lhe ainda uma casa feérica, com tectos a talha dourada, camas forradas a lâmina de prata e jarros de prata para urinar. Sabe-se que era ciumento e possessivo, mandando matar os amantes de uma cigana com quem se relacionou e que, pelos vistos, não se contentava com os prazeres da alcova real. Depois da madre Paula mais um amor louco com uma senhora, que não deixou por isso de incluir no arrolamento a posse da sua criada. Já pelos cinquenta anos ainda mandava comprar afrodisíacos para manter a centelha, mas no fim da vida acaba transformado num homem com ‘forte pendor religioso’.
Apesar de D.José I gozar da mesma fogosidade que o pai, preocupa-se com a opinião pública, mantém sigilosos os seus casos ilícitos e não reconhece publicamente qualquer filho bastardo. A rainha Maria Vitória é ciumenta, ao ponto de proibir a presença de actrizes no teatro, passando os papéis femininos neste reinado a ser desempenhados por homens. Mas a precaução do rei com a sua imagem acaba no dia em que conhece Teresa Távora, cuja família acabará por ser implicada no atentado ao rei, vindo todos, crianças incluídas, a ser brutalmente torturados e executados em praça pública no cais de Belém, e o nome Távora a ser banido de Portugal. Salvam-se a amante e a filha, que ficarão a viver num convento com direito a pensão mensal do rei.
Ponto parágrafo para uma mulher
D.Maria I, filha de D.José, é a primeira mulher a subir so trono de Portugal. Casa-se com o irmão do pai, D.Pedro III, para que a coroa não seja reclamada por um estrangeiro, e apesar da diferença de 18 anos juntos formam o casal mais ‘harmonioso da História de Portugal’, dizem as historiadoras. Nenhum senão a relatar na vida conjugal e política.
Sobre D.João VI nada definitivamente esclarecido, a não ser que rei e rainha são inimigos públicos declarados. Casa-se com a infanta espanhola D.Carlota Joaquina, ela ficará para a história como ninfomaníaca e até assassina do próprio marido, ele como homossexual, já que há testemunhos de que tinha uma relação priveligiada com um camareiro a quem tratava em carta por ‘Meu Francisco’ e ‘Meu Amor’.
Por oposição ao pai. D.Pedro IV mostrará um carácter viril, ‘exarcebadamente erotizado’, dizem as autoras. E, a ver pelo relato, deu mais que um grito do Ipiranga sobre os valores tradicionais. Libertino e insaciável, leva tudo a eito: casadas, solteiras e viúvas, de qualquer raça e condição social, a dois ou a três se as irmãs se juntassem, criadas e restantes mulheres da casa incluídas. Casado com a princesa austríaca Leopoldina, cujo sofrimento e humilhação eram partilhados pelo povo brasileiro, D.Pedro tinha o desplante de levar mulher e amante juntas nas representações oficiais. Domitília era a amante, aquela a quem devota o seu mais escaldante amor, não deixando evidentemente de engravidar pelo caminho a sua irmã. Elevou toda a família à nobreza, tornando-a uma das mulheres mais ricas do Brasil, e quando a imperatriz Leopoldina, num último assomo de dignidade, pretende voltar à Áustria, D.Pedro bate-lhe violentamente, acabando a esposa por vir a morrer de sofrimento, como é comentado por todo o povo. Entre os vários jogos que alimentam a relação com Domitília, constrói-lhe um palácio à frente do seu. E à janela – cada um nos seus domínios – ela vai fazendo cenas exibicionistas e ele, voyeur, vai-lhe dando indicações. Entre legítimos e bastardos que deixa espalhados pelo mundo, conhecem-se pelo menos vinte e cinco.
Mais um ponto parágrafo para D.Maria II, casada com D.Fernando, primo direito da rainha Vitória de Inglaterra. Constroem uma família feliz e uma união onde reina a confiança mútua, palavras que o próprio deixa escritas no diário, no dia em que a rainha morre.
Ao que parece um dos mais bonitos príncipes da Europa, o seu filho D.Pedro V, sai em versão puritana. Apelidava as damas da corte de ‘aventesmas’ e não suportava a futilidade das mulheres desta ‘terra de laranjas e limões’. Levava uma vida de eremita com os seus livros até conhecer a princesa alemã D.Estefânia, por quem virá a ter uma grande adoração e com quem consegue casar-se apesar de todos os obstáculos que lhe são apresentados. Foi o encontro da alma gémea’, dizem as historiadoras, união perfeita baseada no ‘princípio sublime e cristão da companhia no casamento’, onde havia total compreensão mútua, palavras que o próprio deixa escritas para a posteridade. A rainha morre cerca de um ano depois do casamento e D.Pedro morre também precocemente, aos 24 anos.
O aberrante e o extravagante
Sucede-lhe o irmão D.Luís, Lipipi como era tratado em casa, mais partidário do folguedo e do vinho. Casa-se com D.Maria Pia, filha do rei italiano, relação que começa por ser de paixão e cumplicidade e que acaba por desabar, devido ao regresso do rei aos seus entretenimentos extraconjugais, entre eles o caso famoso com a actriz Rosa Damasceno. D.Luís tera comportamentos diz-se que ‘aberrantes’ (como a escrita de cartas eróticas a várias mulheres que depois lhe vão extorquindo dinheiro) e D.Maria Pia, não lhe ficando atrás, torna-se personagem extravagante, gasta fortunas em vestidos e arranja também um amante, pelo que evidentemente será mais condenada do que ele. Mas acabam a história em família, ela ‘piedosa’ junto ao marido, quando o rei agoniza no leito de morte.
Com o filho D.Carlos repete-se a situação. Começa um casamento de uma ‘felicidade profunda’, nas palavras da própria rainha D.Amélia, até que o rei volta à campanha amorosa mais sistemática, por este condado afora. ‘Coleccionava as camponesas da Estremadura ao Alentejo como quem apanha flores’, contará a rainha. Desde cedo que também ele não escolhe classe social, tanto lhe faz filhas de fidalgos ou de jardineiros, e sabe-se que até que costumava ir à biblioteca do Convento de Mafra para apreciar os livros de estampas dos frescos pornográficos de Pompeia. O seu ‘deboche e avidez’ (mais uma vez adjectivos da rainha) eram tão públicos e tão incómodos socialmente, que chegaram a inspirar um romance escandaloso de um autor e tipógrafo anónimos, que em 48 horas vendeu seis mil exemplares.
Do curto reinado de D.Manuel fica apenas a paixão, mais uma vez publicamente censurada e que enche as páginas dos jornais, por Gaby Deslys, actriz e bailarina de music-hall que á conta do romance real conquistará os palcos de Paris, Londres e Nova Iorque. Já no exílio, D.Manuel virá a casar-se num principado da Floresta Negra com a prima D.Augusta Vitória, que já nunca chegará a ser rainha ou a conhecer Portugal.»
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