A rede de mercearias que recentemente decidiu mudar a sua sede fiscal para a Holanda teve um dia em cheio. Numa provocação aos sindicatos que convocaram uma greve, decidiu oferecer cinquenta por cento de desconto aos clientes que fizessem compras de cem euros. O departamento de marketing do grupo está de parabéns: a maioria das lojas ficou em estado de sítio com a horda de zombies consumistas que esvaziaram prateleiras e lutaram por um pedaço do sonho proporcionado pelo magnânimo Alexandre Soares dos Santos, um dos pais da pátria. Estão todos bem uns para os outros: a rede de mercearias pode até ter tido prejuízo hoje - a prática de dumping (venda de produtos abaixo do preço de custo) é probida por lei mas ninguém reclamou; contudo, a publicidade gratuita que está a conseguir irá repercurtir-se por muitos dias. Para além disso, parte do prejuízo será assumido pelos fornecedores - cada campanha dos grandes grupos é sempre em parte financiada por quem coloca lá os seus produtos, numa perversão das leis da concorrência que torna a posição negocial destes grupos incontestável. Mas também os zombies estão de parabéns: os milhares (milhões?) de clientes que hoje gastaram dinheiro em mercadorias a granel - é para isso que estes estímulos ao consumo desenfreado servem - não chegarão a perceber que parte daquilo que compraram não era absolutamente necessário e por isso viverão felizes na ignorância dos estúpidos. Mas os sindicatos que andaram a fazer campanha contra as cadeias de hipermercados que abriram também não ficam bem na fotografia. A verdade é que os trabalhadores desta rede vão receber a triplicar e terão um dia de férias a mais. E o "povo", essa entidade que, quando quer, sabe comportar-se como uma horda de zombies, esteve literalmente a borrifar-se para a crise e para os direitos dos trabalhadores. As coisas são como são.
Mas tenhamos uma coisa em mente: nas alegorias políticas em forma de filme de zombies de George Romero, os mortos-vivos acabam quase sempre por ganhar consciência e tomar conta de tudo. Os neoliberais contentinhos com o êxito passageiro de Soares dos Santos poderão ser os humanos do futuro, carne para os zombies de agora. Nada dura para sempre.
http://arrastao.org/2518513.html
Um texto que demonstra como a esquerda pseudo-intelectual trata o "povo" que diz defender.
Se estão com eles, a manifestar-se são trabalhadores que lutam contra a redução de salários, que lhes diminui o poder de compra; caso optem por aproveitar uma promoção que lhes aumenta o poder de compra são zombies;
Se estão com eles, a incendiar a rua, é o grito espontâneo da rua contra o neoliberalismo; caso optem por ir às compras, são estúpidos porque não necessitavam daquilo que compraram (pelos vistos os sindicatos já tiveram acesso à facturação detalhada do Pingo Doce ontem, pois ficaram a conhecer perfeitamente a quantidade de artigos adquiridos);
Se estão com eles a incendiar edifícios, como fizeram na Grécia, é a revolta do povo; se dão uns encontrões na fila para irem comprar comida, são arruaceiros;
Esta supremacia intelectual que a esquerda parlamentar folclórica portuguesa exibe, só vai levar à sua extinção, basta ver os últimos resultados do partido predilecto do autor deste texto.
Dá gosto ver os interesses instalados à esquerda a gritarem histéricos pela actuação da PIDE alimentar e económica. A esquerda parlamentar folclórica portuguesa é cada vez mais contrária à liberdade, vivem num mundo em que todos estão obrigados a que seja feita a sua vontade. Os sindicatos mandaram protestar, tinha tudo que protestar. Quem não o fez, ou foi proibido pelo patronato sem escrúpulos, ou é estúpido.
PS - Mas não é só a esquerda que assim age. Gostava também de ver a reacção da direita beata a uma promoção destas numa tolerância de ponto no dia da visita do Papa. Aí, a esquerda já não se preocupava muito com os maus gastos da população no Pingo Doce, nem a direita se lembraria do liberalismo e da liberdade.