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«Há pouco mais de nove meses, a Unidade Móvel de Saúde de Odemira percorreu pela primeira vez o caminho de terra que une o Monte Mal Pensado ao resto do mundo e encontrou Jacinto consumido por uma magreza extrema. Alto e apessoado como sempre fora, pesava apenas 39 quilos. Os técnicos providenciaram que o Lar mais próximo lhe garantisse o almoço e referenciaram o seu caso a Fabio Medina, psicólogo de "A Vida Vale", que desde então o visita regularmente. Essa simples presença veio aliviar o isolamento a que vivia remetido, separado dos únicos vizinhos por hectares de terra, sem meios de locomoção e com um telemóvel que, além de não saber usar, raras vezes acusa rede.
Jacinto Coelho era, aos olhos de Fabio Medina, um alvo obrigatório de atenção. Era um dos típicos idosos de Odemira, o maior concelho do país e um dos mais dispersos em termos populacionais, onde as pessoas, em especial os mais velhos, tiram a própria vida a um ritmo que quintuplica a média nacional (com 55,6 óbitos anuais por cada 100 mil habitantes face aos 10,32 do país) e supera largamente a europeia. E era, sobretudo, um morador da freguesia de Sabóia, que as estatísticas identificam como tendo a maior taxa de suicídios do mundo. O projecto "A Vida Vale", promovido pela Fundação Odemira, surgiu em 2011 para prevenir e tentar inverter esta realidade. Um ano de trabalho no terreno, porém, ensinou à equipa que suicídio é palavra a evitar por estas paragens.»
«Aníbal Margarido é dono de seis cabeças de gado. "Matar-se é o destino desta gente", afirma»
«Vidaul Santos tem quatro espingardas em casa, todas carregadas. Se se visse "atado de pés e mãos", admite que as usaria contra si próprio»
«"Ser isolado em Lisboa é uma coisa. Sê-lo num monte sem água nem luz, nem telefone, é outra completamente diferente" diz Cília Campos, socióloga e coordenadora de "A Vida Vale", projecto cotado na Bolsa de Valores Sociais. Porém, "muitos idosos queixam-se de estarem sós, mas não aceitam ir para o Lar. Não querem deixar as suas raízes. E alguns reclamam das condições de vida, mas poderiam estar melhor". São as contradições de um terreno de matemática inexacta, de hábitos arreigados e de aversão à mudança. Manuel Paulino é um destes casos. Cília conheceu-o numa volta pelos montes, em Vale Touriz: olhou para cima e viu um casebre que parecia abandonado. Ao subir o íngreme caminho de cabras até à entrada, encontrou o seu proprietário.
Este homem de 72 anos cansados, cego de uma vista, vive há oito neste lugar, a 33 km de Odemira. Tem um pequeno carro, que usa para visitar o filho e os netos, residentes em Portimão. Ele próprio trabalhou quatro décadas no Algarve (foi funcionário autárquico) até decidir voltar à zona onde nasceu e a este terreno herdado do pai, com uma casinha no cimo. Será preciso entrar na sua escuridão cerrada para entrever os contornos de uma ruína sem janelas, água e luz eléctrica, onde espessas teias de aranha pendem da telha vã e restos de lume jazem no chão de pedra. Vestígios de comida, beatas de cigarros e embalagens vazias convivem com os seus magros pertences.»
«Além do trabalho estatístico, a também chefe do departamento de psiquiatria do Hospital de Beja dá conta daquilo a que o Observatório chama de "perfil descritivo do suicida", apurado a partir de 172 casos analisados entre 2007 e 2010. Segundo as conclusões do perfil, 86,5% por cento dos que tiram a própria vida são do sexo masculino e 80% apresentam alguma perturbação mental, seja por factores genéticos, biológicos ou somáticos. "Muitos destes casos não recorrem ao serviço de psiquiatria ou têm muita dificuldade no acesso aos cuidados de saúde continuados", diz Isabel Santos.
Acrescem factores de ordem cultural - como a "baixa religiosidade das populações" - e social/territorial: "Este distrito é o mais extenso em área geográfica, possui uma grande dispersão da população e um difícil acesso aos transportes. Por outro lado, apesar da taxa de suicídios ser a mais alta do país e de haver uma elevada prevalência de doenças mentais, é o distrito com maior carência de psiquiatras em Portugal e o único que não tem internamento psiquiátrico."
Para Isabel Santos, "são claramente os idosos que se suicidam mais", havendo muitos casos de depressões não detectadas. E são, sobretudo, idosos em situação de isolamento "geográfico e afectivo". "O agravamento do cenário socioeconómico tende a aumentar o risco", conclui a psiquiatra, "tornando mais acentuados os sintomas de desesperança e de depressão".»