Com este governo, esta maioria e, sobretudo, estas pessoas, não vamos lá: o défice voltou a entrar em descontrolo e adivinha-se novo aumento de impostos.
Por razões próprias e alheias, este governo não fez as reformas que tinha que fazer para domar a despesa pública, isto é, para atacar as causas profundas do défice. Pelo contrário, convenceu-se o governo de que o nível da despesa pública até poderia ser mantido ou baixar pouco («vamos manter o estado social», não cansaram de proclamar os seus dirigentes), caso os impostos aumentassem e as exportações também, fórmula mágica que dificilmente se consegue manter por muito tempo, porque explica o bom senso que nenhuma economia se desenvolve se não conseguir aforrar e investir. Um erro de amadores, portanto.
Por outro lado, no que o governo tentou mexer – salários e subsídios da função pública e pensões – o Tribunal Constitucional não deixou, porque a Constituição protege, de facto, o modelo social que o governo afirmou também que defenderia e, consequentemente, enquanto esta Constituição mantiver o modelo, o Tribunal Constitucional não autorizará que ele seja revertido por via orçamentária.
Leva-nos isto à seguinte conclusão: o país só voltará a ser sustentável se forem feitas as reformas necessárias para uma brutal contração da despesa pública, o que poderá suceder por duas únicas vias: por simples implosão do estado social vigente e a sua substituição por um modelo de governo autoritário, hipótese completamente fora de questão na União Europeia, ou por um entendimento entre os dois partidos que podem reunir os 2/3 de votos necessários para a reforma da Constituição que venha a permitir uma verdadeira reforma do estado.
E é isto que anda António Costa a dizer, quando insinua estar disponível para um bloco central com um PSD liderado pelo seu amigo Rui Rio. A coisa tomou já tais proporções, que, na entrevista ao Expresso de sábado passado, ele desafiou Rui Rio a fazer no PSD o que ele fez no PS: desafiar a actual liderança para uma disputa interna pela mesma. É com ele, com Rui Rio, que António Costa conta começar a governar o país por daqui a alguns meses.
Dê ou não dê resultado, não tenho quaisquer dúvidas que o Tribunal Constitucional e a opinião pública em geral aceitariam com muito mais tolerância um fim do actual estado social se promovido por um governo liderado pelo PS, do que se liderado pelo PSD em coligação com o CDS. No fim de contas, não será muito diferente do que sucedeu, no passado, com o governo do Bloco Central, liderado por Mário Soares, e que está actualmente a suceder na França de Hollande. No fim de contas, «les beaux esprits se rencontrent».
http://blasfemias.net/2014/08/25/les-beaux-esprits-2/