Em primeiro lugar, o que deveria ter sido feito. É ir ver o histórico deste e de outros tópicos neste fórum onde sempre defendi que o intervencionismo ocidental e o derrube de ditadores seculares em países muçulmanos iria originar mais terrorismo, maior insegurança e mais miséria nos países "libertados", mesmo quando toda a gente andava embevecida com a "Primavera Árabe". Todos esses países, sem excepção, estão hoje muito piores do que estavam antes da "libertação" e em todos eles grupos terroristas actuam de forma livre.
Há menos de dois anos, John McCain teve uma reunião de apoio com os insurgentes sírios, liderados pelo que seria poucos meses depois o Califa do ISIL. A primeira medida seria que isto servisse de lição, mas não vai servir, Reagan recebeu os Taliban na Sala Oval e deu no que deu, e ninguém aprendeu. Mas Reagan, num contexto de Guerra Fria, aplicou a máxima "os inimigos do meu inimigo são meus amigos", pelo que ainda tem uma atenuante. A indústria de guerra ocidental andou a plantar ventos (e digo ocidental, não foram só os americanos como muita gente gosta de dizer) e começa a colher as tempestades. Apenas para interesse pessoal de alguns colocou em risco a segurança de todos, gastou dinheiro dos contribuintes e espalhou miséria e destruição em países soberanos que não eram ameaça para ninguém. E isto deveria ter consequências (pelo menos políticas), mas não vai ter.
Por outro lado, tenho pena que a maioria dos liberais ocidentais não se chateie com o intervencionismo estatal em países estrangeiros da mesma forma como se indigna com o intervencionismo em assuntos internos. Alguns até o apoiam. E tem-se lido por aí que não se deve culpar o Ocidente por actos de terrorismo cometidos por Islâmicos radicais. É óbvio, que a parte principal da culpa é os executores do ataque, mas também é culpado quem facilitou a sua acção. E os líderes ocidentais têm muita culpa no cartório. Podemos também comparar com o que se disse por parte da direita ocidental, aquando do massacre de Beslan, na Rússia por forças Chechenas. Na altura, a culpa era dos russos, porque tinham sido muito desumanos na guerra da Chechénia. Dois pesos, duas medidas, em matéria de política internacional a hipocrisia da direita é semelhante à dos comunistas.
O que fazer agora? Como já aqui referi, o mal está feito, não há soluções fáceis. Em primeiro lugar, deixar os russos, que parecem muito interessados nisso, continuar a apoiar o Assad, e deixá-lo no governo da forma que ele quiser (já que na Síria, ao contrário da Líbia e do Iraque, a situação ainda é possível de reverter).
Internamente, e sabendo que nunca serão todos os atentados evitados, mantermos os valores civilizacionais do Ocidente (que nos distinguem dos terroristas), como o Estado de Direito e a liberdade de circulação e deixar as autoridades judiciais e policiais prosseguirem o seu trabalho. A histeria nunca resolveu nada, nem vai resolver. O extremar de posições só vai originar mais massacres. Nunca se vai conseguir evitar que um maluco desate aos tiros no meio da rua (e malucos destes não se esgotam no terrorismo islâmico,volta e meia e aparece um maluco sem qualquer ideologia aos tiros).
E termino com uma estatística que li há uns tempos (não sei se ainda estará válida): que nos últimos anos, na Europa, morreram mais pessoas em quedas em escadas do que em actos de terrorismo. Vamos colocar um polícia em cada lanço de escadas, com uma ambulância estacionada ao lado? Esta deriva securitária histérica pós-atentados só serve os interesses dos terroristas (espalham o medo, que é o principal objectivo) e do Estado gordo, controlador e tentacular que tem de controlar a vida de todos em prol do bem-estar comum. Com consequências diferentes (é óbvio que não é a mesma coisa) a deriva securitária é semelhante à histeria da ASAE sempre pronta a proteger os incautos consumidores de qualquer perigoso padeiro que use acessórios de madeira.