A crise actual, que se vive nos dias que correm, tem mais de socialista que de neo-liberal. O rebentamento da bolha imobiliária nos EUA apenas serviu de chama para atiçar o barril de pólvora, e esse combustível é a existência de um Estado Social que vive acima da riqueza que o Ocidente produz.
Os recursos são finitos, e muitos dos bens que precisamos estão nos chamados países emergentes. Há muito que começou uma transferência brutal de riqueza do Ocidente para o Mundo Árabe, América Latina, Sudoeste Asiática ou África Sub-Sahariana.
No Ocidente, e em especial na Europa, com o aumento da esperança média de vida, a entrada cada vez mais tardia no mercado de trabalho, o crescimento desmesurado dos salários e dos apoios sociais, há muito que se previa uma explosão do Estado Social.
O actual sistema de reformas foi pensado numa altura em que a esperança média de vida na Europa Ocidental rondava os 70 anos. Portanto, a idade de reforma, ficou nos 65 anos. Ora neste momento a esperança média de vida na Europa ronda os 80 anos, e a tendência é para continuar a aumentar nas próximas décadas, graças ao desenvolvimento da Medicina. Simultaneamente ao aumento da esperança média de vida, houve países que reduziram a idade da reforma para 62 ou 60 anos, e os jovens começaram a entrar cada vez mais tarde no mercado de trabalho, tanto que actualmente uma percentagem cada vez maior entra apenas depois dos 30 anos.
Por outro lado, os custos dos serviços de saúde públicos, fruto do aumento das remunerações e do aumento do custo dos tratamentos, cada vez mais sofisticados, tudo aliado a uma gestão não raras vezes incompetente, levou a um rombo nas contas dos serviços nacionais de saúde de vários países europeus.
O problema é mais grave nos países do Sul, pois os países do Norte há muito que levaram a cabo reformas que permitem a existência de um Estado Social sustentável. É o caso da Suécia, que nos anos 90 despediu milhares de funcionários, da Dinamarca, que tem as leis laborais mais liberarais do mundo, da Suíça, onde a reforma máxima não ultrapassa os 2000 euros, da Alemanha, que pretende aumentar a idade da reforma para os 70 anos, etc. A Suíça, a Alemanha ou a Suécia estão mesmo entre os países com melhores perspectivas económicas a médio e longo prazo em toda a Europa.
Portanto, acima de tudo estamos perante uma crise específica de alguns países, que poderá desplotar uma crise em países que emprestaram dinheiro ao Sul, mas que têm economias dinâmicas e Estados Sociais sustentáveis. A longo prazo, poderão aumentar as tensões entre Sul e Norte, o que porá em causa a própria UE.
Portanto, para o Estado Social sobreviver, os europeus, em especial os meridionais, terão de mudar. Os jovens terão de começar a trabalhar mais cedo, a descontar mais cedo, teremos de trabalhar todos até mais tarde, os europeus não poderão continuar a recusar profissões que são depois exercidas por imigrantes, a exigência no Ensino terá de aumentar...