Carlos Antunes: “O medo vai ter de voltar”
Carlos Antunes, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, pede um “fecho integral” e mais rastreio e testagem. É preciso mais e melhor do que fizemos em Março.
Andrea Cunha Freitas
21 de Janeiro de 2021, 22:12
Carlos Antunes, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, estava habituado a fazer previsões sobre o dramático efeito das alterações climáticas. Agora tudo o que faz é sobre covid-19. Em entrevista ao PÚBLICO no dia em que o Governo anunciou que i
ria fechar as escolas depois de vários dias de hesitação, o investigador constata que andámos a perder tempo, que já perdemos o controlo. "Nós estamos a caminhar para o caos, deixámos de controlar o sistema. O sistema é que nos está a controlar a nós”.
Devíamos fechar tudo. Não só as escolas, mas parar as fábricas, a construção civil, o
take away dos restaurantes, tudo. E testar mais, muito mais. E, mesmo assim, avisa Carlos Antunes, convém estarmos preparados para os murros no estômago que aí vêm, nomeadamente com a chegada da variante do Reino Unido e das outras. Perdemos tempo e cometemos erros em cima de erros. Mesmo quando, no início de 2021, uns diziam que não existiam dados para avançar com medidas, já existiam alertas mais do que suficientes, confirma o especialista. Talvez só agora os portugueses sintam que lhes “estão a pisar os calos” e as coisas mudem. Talvez agora o medo volte. É isso que é preciso, diz o investigador que se confessa quase tão triste como preocupado e que espera agora que os portugueses tenham medo, tenham muito medo. Muito mais do que tiveram em Março.
A novidade do dia é o fecho das escolas. O que é que isso muda?
Em princípio, do ponto de vista teórico, todos os contactos que sejam reduzidos vão ajudar. Estávamos com uma
redução da mobilidade muito baixa, uma redução de 30% no fim-de-semana e depois de 10% no início da semana. O fecho de escolas obrigatoriamente vai reduzir essa mobilidade e os contactos. O que se sabe, pela monitorização noutros países, é que reduzir os contactos vai ter um impacto.
Qual?
Vai depender da dimensão das medidas. É só as escolas ou vai haver mais medidas? Penso que devem vir aí mais medidas. O objectivo será exactamente tentar ter pelo menos o impacto que tivemos em Março. Contudo, nós já sabemos que o impacto de Março é insuficiente. Os médicos estavam preparados para oito semanas para conseguirmos chegar ao nível de Natal. O que estamos a observar é que essa trajectória afinal não é de oito semanas, mas pode ser de dois meses e meio, três meses. Portanto, temos de conseguir melhores resultados do que tivemos em Março.
Como?
Tem de ser uma coisa mesmo integral. Não sei ainda o que vai sair hoje do Conselho de Ministros, mas acredito que seja uma coisa mesmo integral.
O que é isso de uma coisa mesmo integral? Que tipo de medidas?
Daquilo que vejo nos outros países, só permitir a saída de casa mesmo só exclusivamente para aquilo que é essencial e só uma pessoa de cada casa. Não ter ninguém na rua. Nem os passeios higiénicos, mesmo esses têm de ser mínimos e à volta de casa. Houve países que puseram uma limitação a cinco quilómetros. A questão é que, ao nível de incidência em que nós estamos, temos de fechar tudo o que seja possível.
Fecho integral também devia incluir o take away dos restaurantes?
Acho que sim.
E o trabalho, há pessoas que não podem fazer o seu trabalho à distância...
Se é um serviço mínimo, a questão, por exemplo, da cadeia de distribuição de produtos essenciais para os mercados tem de se manter.
Mas há fábricas...
Exacto. Ou a construção civil. Há um conjunto de actividades que podem ser fechadas durante uma semana ou 15 dias. Porque enquanto não conseguirmos reduzir ao máximo os contactos não conseguimos trazer a incidência para baixo. Ela está muito elevada. Isto está disseminado por todos os concelhos. O mapa está quase todo vermelho. O vermelho quer dizer que praticamente existe uma pessoa em cada 100, 1% das pessoas estão infectadas. E vimos pelo gráfico dos grupos escolares que a partir dos 12 anos têm uma incidência acima de mil. Passámos o limite. O problema é que agora não queremos aceitar estas medidas drásticas, mas não compreendemos que fomos além daquilo que podíamos ter ido. Se tivéssemos conseguido antes do Natal trazer a incidência para mil, tudo bem. Mas não conseguimos. Partimos de um patamar elevado. Deixámos que a terceira vaga partisse de um valor muito elevado.
E agora?
E agora ainda temos o problema da nova variante. Sabemos que no final do mês vamos ter
60% de contágio com a nova variante.
Vai tornar-se dominante...
Sim. E repare o que é que significa uma variante que aumenta a sua carga viral no trato respiratório superior em 32 vezes. Quando expiramos, expiramos 32 vezes mais partículas virais do que nas variantes anteriores. É isso que dá essa capacidade de ser mais transmissível. Com esta variante a circular, isso não vai permitir reduzir a incidência a níveis que necessitamos.
E é por isso que precisamos do tal fecho integral?
Sim. Mas não só. Embora existam pessoas que são contra e que dizem que é impraticável porque não há recursos, a única forma é também duplicar, triplicar ou quadruplicar a capacidade de rastreio, inquéritos epidemiológicos e testagem. Estávamos quase a enveredar por ir para as escolas testar os alunos todos. Isso é uma testagem aleatória e com isso não se encontra quase nada. Foi o que demonstrámos no Natal. Aquela
corrida aos laboratórios não alterou a curva de casos. Ao passo que os 25 mil testes que fizemos a menos do rastreio epidemiológico no Natal levaram a cinco mil casos que nós perdemos e que criaram cadeias de transmissão. A testagem tem de ser feita de forma criteriosa.
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