“Ninguém consegue compreender como aconteceu. Mas ainda bem que foi agora”: o lar em Évora onde 12 mulheres vacinadas testaram positivo
É um dos maiores lares da zona sul do país: tem 140 camas, um número que nos dias de hoje já não seria permitido. No Recolhimento Ramalho Barahona, no centro de Évora, 12 mulheres com idades entre os 77 e 99 anos testaram positivo à covid-19 depois de terem tomado as duas doses da vacina. Estão quase todas assintomáticas, algumas têm sintomas ligeiros (e, entretanto, quatro já estão negativas). Foi a eficácia da vacina que as protegeu
s quartos estão vazios. Os armários também. Toda a roupa tirada das gavetas, empacotada em sacos pousados em cima de cada cama. Vão levá-los para baixo, para a lavandaria. Tudo para limpar e desinfetar. Um saco por cama. A auxiliar Joaquina Vinagre abre as janelas, mais logo há de ir fechá-las. “Parece que são os mortos que ali estão.” As 12 camas são de 12 mulheres que tiveram de abalar. Saíram porque estavam doentes com a doença que há ano paira ali por perto mas que até agora nunca tinha entrado no lar Recolhimento Ramalho Barahona, em Évora. Chegou duas semanas depois de todos eles - utentes e funcionários - terem recebido a segunda dose da vacina contra a covid-19. “Estou em crer que foi isso que as safou. Coitadinhas, acho que não teriam resistido de outra forma.”
Há quase metade da vida que Joaquina, 55 anos, trabalha naquele que é um dos maiores lares da zona sul do país, gerido pela Santa Casa da Misericórdia de Évora. Desce até à rua para conversar, para contar como durante alguns dias vestiu o fato completo, usou luvas, proteções, máscara, óculos, viseira. “Ai, filhos… e usar aquilo tudo? Nem sei como fazem nos hospitais, nós só estivemos dois dias com elas positivas. É muito difícil trabalhar assim.” Foi a um domingo à noite que chegou a notícia: 12 mulheres com idades entre os 77 e 99 anos, todas da enfermaria feminina com pessoas de maior dependência, tinham covid-19. Enquanto Joaquina nos fala, as restantes auxiliares espreitam e ouvem a conversa. Têm tempo. Não estão lá as suas senhoras.
Foram apanhados de surpresa quando uma das utentes foi testada durante uma ida a uma consulta no hospital. Estava positiva. De imediato fizeram testes rápidos à duas mulheres que com ela partilhavam o quarto e às duas funcionárias que lhe prestavam cuidados diretos. “Tudo negativo, as autoridades de saúde mandaram fazer testes PCR em todo a ala e confirmou-se que havia mais 11 pessoas com covid-19”, explica Madalena Meneres, diretora técnica da residência. A suspeita é que o vírus tenha entrado no Barahona por uma outra utente que uns dias antes também tinha ido a uma consulta. “Tal como está estipulado, a senhora regressou e fez o isolamento. O que achamos é que foi na reta final do isolamento - e sem qualquer sintoma - que a infeção se manifestou e depois se transmitiu. Esta é a dedução que fazemos porque ninguém consegue compreender. E já que aconteceu, ainda bem que foi nesta altura, a vacina teve o seu efeito: o vírus continua a contagiar e mesmo vacinados somos agentes transmissores. Não há sintomas e a probabilidade de desencadear uma fatalidade não é tão grande.”
O caso positivo foi confirmado 17 dias após a toma da segunda dose da vacina, altura pela qual já está em máximo funcionamento. No entanto, tal como a
Direção-Geral da Saúde explica, “apesar de muito eficazes, as vacinas não evitam completamente o risco de infeção”. As “poucas pessoas vacinadas que foram infetadas desenvolveram geralmente formas pouco graves” da doença.
Os quartos estão abertos, foram limpos e totalmente desinfetados. “Há funcionárias que não conseguem lá entrar, cada cama vazia é de uma senhora que não está lá. Faz-lhes confusão”, conta Madalena. E é assim mesmo, confirma Joaquina, “a gente parece que as ouve chamar por nós e não estão ali.”
Por decisão das autoridades de saúde locais, dias depois do começo do surto foi decidido levar as 12 senhoras para a Estrutura de Apoio de Retaguarda (EAR) de Évora, uma residência universitária no centro da cidade que está desabitada. Um grande painel de obra protege os muros do edifício. Parte das janelas tem os estores por levantar, outras já estão entreabertas. Nada ali denuncia que estão em isolamento doentes covid. Nas traseiras, dois pequenos letreiros: “Não é permitida a entrada de pessoas estranhas” e “Resíduos”. Nada mais. Cada uma delas está num quarto.
O dia da abalada é o que mais custa recordar. A Joaquina perguntaram vezes sem conta para onde iam. “Elas abalaram a chorar porque não queriam sair.” Madalena detém-se e sem perceber também ela chora. “Mesmo ao longe conseguíamos ver que estavam em lágrimas. Foi uma angústia muito grande, foi muito complicado.” E continua: “Ouvem nas notícias que um lar está infetado com não sei quantos casos, que morreram não sei quantos. É uma realidade muito próxima porque conseguem perceber que estão numa fase final da vida e que estão numa situação clínica da qual ouviam falar nas notícias há não sei quanto tempo e que agora lhes está a acontecer.”
Dias depois, uma nova ronda de teste a todos os utentes. “Só vi a doutora Madalena a correr pelos corredores a rir, nem percebia muito bem a dizer o quê. Vinha a bater palmas”, conta Manuel Garcia, “que em maio” faz os 90 e mora no lar há quase dois anos. Madalena tinha acabado de receber os resultados: todos negativos.
“Mas estamos mesmo todos bem?” Sim, estão.
As salas comuns voltam a abrir-se. Os passeios ao jardim voltam a ser permitidos. Voltam a estar socialmente distantes em conjunto. E o senhor Garcia senta-se agora em frente de um outro utente de colete de malha a jogar à bisca dos nove.
Ninguém estranho ao lar atravessa para lá das portas automáticas. “Como percebem, se não há visita de familiares para evitarmos problemas, também não é seguro deixarmos entrar jornalistas. Mas podem ver tudo pelos vidros”, explica o provedor Francisco Lopes Figueira.
Quando as portas se abrem, seja porque o gato entra e sai do edifício ou porque alguém passa suficientemente perto do sensor para acionar o mecanismo, lá de dentro ouve-se pouco. Uma cadeira ou outra a arrastar. Uma bengala ou andarilho que bate no chão ao ritmo de um andar arrastado. Vozes não se ouvem muitas. “Estão cansados. A paciência já é pouca. É notória a evolução de demência nos nossos utentes, admito que sejam por estarem isolados e apesar de nós termos um espaço exterior e poderem passear, quando a necessidade é um abraço de um familiar não há nada que conforte”, diz Madalena.
Há quase dois meses que não recebem qualquer visita, resta-lhes as videochamadas. E mesmo antes os encontros com os filhos e netos eram feitos à distância, máscara e sem toques. Cada utente que vá a casa ou saia do lar “até para uma consulta”, quando retorna ao lar faz testes à covid-19 e fica em isolamento. Também por isso muitos deles escolheram não sair nem pelo Natal.
“Ficava eu em risco e eles também. Com a minha idade ainda pior era. Para não ficarmos com remorsos, seja deles ou eu, preferi ficar aqui em casa.” Romualda Santos, 88 anos, chama casa ao Barahona desde que o marido morreu há ano e meio e escolheu ir para o lar. “Desta vez não houve Natal como os outros, foi mais triste. As saudades que eu mais tenho é de estar ao pé das minhas filhas e dos meus netos. É mais a saudade que eu tenho que do resto… também já não tenho idade para fazer grande coisa.”
Manuel Garcia, ao contrário de Romualda, era dos saíam muitas vezes do lar. Aliás, no mesmo dia em chegou trouxe a sua carrinha para poder dar as suas voltas. “Ia a casa quando quisesse, tratar da minha vidinha. Acontece que se deu isto da pandemia e desde 7 de março nunca mais fui. Tenho sentido muito, mesmo como um desgosto.” Tal como ele, muitos outros utentes autónomos saíam do lar para ir tomar um café ou para irem jogar no euromilhões. Tinham liberdade para sair e entrar. “Já deixei isso tudo para trás e aqui é que eu estou bem agora: roupa lavadinha todos os dias, comida, tenho bons companheiros. Sinto-me bem.”
Ao início, conta, reclamou com o fecho do lar. “Fomos oprimidos por tudo e por nada, não gostei nada.” Pede que se fale mais alto, os ouvidos já lhe falham. “Agora reconheço que as doutoras fizeram muito bem, que estamos todos protegidos.”
A menos de 50 quilómetros do lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, que se tornou um símbolo da pandemia no país (morreram 18 pessoas), no Barahona, também pela sua dimensão, o vírus foi sempre muito temido mas até agora nunca lá tinha chegado. “As pessoas perguntavam-me o que é que fazíamos para o bicho não entrar”, diz Joaquina. O que a auxiliar não conta muitas vezes é que deixou de ver por completo a família. A irmã que mora ao lado dela já deixou de a visitar há meses, o filho só o viu no Natal. “Privamo-nos mesmo de tudo. Não pode ser, não podemos arriscar. Isto foi uma coisa que veio derrubar a gente, acho eu.”
A direção técnica assegura que desde o primeiro momento foram aplicadas as medidas definidas pela Direção-Geral da Saúde, que todas as limpezas e desinfeções foram reforçadas, assim como os equipamentos de proteção dos funcionários e da equipa de enfermagem. “Os utentes estão sempre cá, não saem. Se o vírus ia entrar só podia ser por alguém que entra e sai do lar e esses são apenas os trabalhadores”, salienta Madalena. “Foi muito importante que os utentes e os trabalhadores estivessem conscientes da importância de cumprir as regras.”
O lar foi dividido e quase funcionava como três residências mais pequenas independentes e também por isso, quando detetado o caso positivo, foi possível de imediato identificar as pessoas que estavam em contacto e, possivelmente, evitar que o vírus alastrasse pelos restantes utentes, acredita a direção.
“Correu tudo tão bem também pelas pessoas que trabalham aqui. Durante todo este ano tomaram todas as precauções, usaram máscara, desinfetaram sempre as mãos. Tiveram todo o cuidado, o distanciamento... Foi um milagre, comparando com a zona aqui, acho que foi um excelente trabalho da equipa toda”, diz Marisa Monteiro, psicomotricista. “Não é que as pessoas não estivessem à espera. Já temos um ano de pandemia, estávamos mentalizadas de que eventualmente iria acontecer.”
Por vezes faz malha, por vezes faz nenhum porque é isso que lhe apetece, diz Romualda - a idade que tem já lhe deu estatuto para ficar apenas sossegada. É uma das utentes mais autónomas: ainda faz a cama todos os dias, trata da sua higiene, veste-se. “Sou independente”, diz. Hoje arranjou o cabelo com um travessão dourado e de pequenas pérolas, que lhe afasta o cabelo do rosto e deixa bem à vista de todos os olhos azuis.
Diz que já teve medo mas que agora está mais aliviada. “Diz que isto está um bocadinho melhor e fico um bocadinho mais satisfeita, mas vamos indo um dia de cada vez. É assim: temos de pensar que vai melhorar porque se a gente esmorece ainda é pior.”
No Barahona, ao jantar, quem quer pode beber um copito de vinho. “Mas muito pequenito”, diz o senhor Garcia. “E chega bem.” E é dele que parte uma exigência. “Quando acabar tudo devíamos fazer aqui um grande festejo. E ao jantar deviam dar-nos dois copos de vinho. Ou três até.”
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