Duvido que consiga albergar tudo neste comentário mas a situação da Grécia é extremamente complexa. A utilização do referendo é algo que poderá ser utilizado vezes sem conta até se atingir um resultado próximo do pretendido. Técnica arriscada porque pode fazer com que o governo perca toda a credibilidade. O governo grego joga com a impossibilidade da Europa expulsar a Grécia. Já há sondagens que dão a vitória do 'sim'. A Europa sabe que o resultado da Grécia será o resultado de outros países. A Europa não se pode dar ao luxo de mais um corte na dívida.
Se o "não" ganha, o governo tem o equivalente a novas eleições. Mas continua na estaca zero nas negociações. Se o "sim" ganha, acredito que o governo se demita. Não quererá o atrito de ter que gerir um país com austeridade, especialmente porque defendeu um plano diferente. Se sair, poderá usar a desculpa que tentou defender o país como pôde. Sai pela porta grande e atribui a si mesmo a capacidade moral de criticar os governos subsequentes. Ou então usa a desculpa do povo ter decidido e quando as coisas voltarem a correr mal volta novamente a esta situação.
Se há chantagem da Europa? Sem dúvida que há. Os governos estão a defender as suas economias mas especialmente os seus lugares. Se a Grécia tem muita corrupção? Tem. Mas muita gente beneficiou dela, incluindo os 'credores'. Claro que os do sul é que são os corruptos e preguiçosos:
Complicit in Corruption: How German Companies Bribed Their Way to Greek Deals
http://www.spiegel.de/international...bribed-their-way-to-greek-deals-a-693973.html
A união política da UE é um erro. A harmonização das regras comunitárias é um erro. No fim de contas, e mais cedo ou mais tarde, será utilizada para manter o
status quo. A Europa do Norte produtora e a do Sul consumidora. É como os alemães, que não gostam de regras sobre a poluição atmosférica mais rígidas porque afeta a sua produção de carros:
http://www.bbc.com/news/world-europe-24532284
Se fosse um país fraco como Portugal a tentar proteger a sua produção haveriam gritos de anti-competitividade e ameaças de Bruxelas. Os alemães pré-escolheram o Juncker. Mas a narrativa oficial é que a Europa federal será a luz mundial de democracia e fraternidade num mundo podre. Quem sou eu para a disputar?
O Governo grego também cai no erro de culpar exclusivamente os outros. A economia paralela e a corrupção não são resolvidas. Mas o FMI também não é uma entidade impoluta. Para além da sua função económica tem uma função política.
Como resolver esse imbróglio? É muito difícil. Também não é justo que os contribuintes portugueses tenham de pagar mais impostos porque os gregos não pagaram os seus empréstimos. Se a Grécia não estivesse no Euro (ou outro qualquer país), o problema seria muito mais fácil de conter. E o problema grego também é francês e britânico. A seu tempo também terão problemas severos. Uma Europa federal só funcionará com orçamentos que não permitam défices. Eu cá aposto que não demorará muito até que os povos se comecem a queixar dos burocratas não eleitos de Bruxelas (já o fazem). O seu estilo autoritário não será diferente de agora. Este tópico é também muito interessante.
Quanto a líderes políticos, penso que as pessoas têm sentimentos contraditórios inconscientes sobre o autoritarismo. As circunstâncias encarregam-se de os despertar alternadamente. O autoritarismo é louvado porque é sinónimo de liderança e segurança. É especialmente exigido im/explicitamente pela população aquando de situações difíceis. De forma contraditória, esse mesmo autoritarismo é criticado quando se aplica internamente. O autoritarismo reflete-se na perda de liberdades e imposição de escolhas. Internamente, as pessoas exigem o processo mais lento e imprevisível da colaboração e democracia. Podem os dois estilos coexistir na mesma pessoa ou líder? Penso que não. A implementação de uma visão pessoal inevitavelmente chocará com os interesses dos demais. Como é que alguém pode ameaçar, coagir e forçar estrangeiros e conterrâneos para impor os seus interesses e ao mesmo tempo mostrar-se vulnerável mediante o processo democrático interno que ameaça terminar com o seu poder? O Putin da Rússia é um bom exemplo mas não termina aqui. Em alguns países da América Latina os limites constitucionais são alterados para permitir a perpetuação da mesma figura. E aí entra a criação de um inimigo externo e omnipresente que justifique a implementação de determinados objetivos. No mundo dito livre, esse papel está atribuído ao terrorismo islâmico. Ocidentais podem matar milhões de árabes. Não faz mal. Merecem. Se cair uma bomba num casamento, azar. Mas quando um árabe mata um ocidental são bárbaros e deve-se continuar a bombardear.
Algumas figuras terroristas são mortas por acidente. Os ataques dos drones são indiscriminados. Obedecem a critérios gerais. Qual é a diferença entre as bombas barril do Assad e os drones? A exposição nas notícias.
Seria de esperar que a Europa fosse um pouco mais racional. Os ataques terroristas, excluindo o 11 de Setembro por razões óbvias, são irrelevantes tendo em conta o que o Ocidente fez, faz e continua a fazer no Médio Oriente.
Algo que não é propriamente novo:
The United States has blocked attempts by its Middle East allies to fly heavy weapons directly to the Kurds fighting Islamic State jihadists in Iraq, The Telegraph has learnt.
Some of America’s closest allies say President Barack Obama and other Western leaders, including David Cameron, are failing to show strategic leadership over the world’s gravest security crisis for decades.
They now say they are willing to “go it alone” in supplying heavy weapons to the Kurds, even if means defying the Iraqi authorities and their American backers, who demand all weapons be channelled through Baghdad.
...
But they are doing so with a makeshift armoury.
Millions of pounds-worth of weapons have been bought by a number of European countries to arm the Kurds, but American commanders, who are overseeing all military operations against Isil, are blocking the arms transfers.
One of the core complaints of the Kurds is that the Iraqi army has abandoned so many weapons in the face of Isil attack, the Peshmerga are fighting modern American weaponry with out-of-date Soviet equipment.
...
The US has also infuriated its allies, particularly Saudi Arabia, Jordan and the Gulf states, by what they perceive to be a lack of clear purpose and vacillation in how they conduct the bombing campaign.
Other members of the coalition say they have identified clear Isil targets but then been blocked by US veto from firing at them.
http://www.telegraph.co.uk/news/wor...directly-to-Kurds-to-fight-Islamic-State.html
O que seria de nós sem terrorismo islâmico com capacidade para atacar o ocidente? Os turcos devem estar entre os principais opositores. Algum do armamento destinado aos curdos iria parar ao seu território. A Rússia tem muitos negócios com a Turquia. Este país apenas quer ter acesso ao mercado comum. Poucas ou nenhumas semelhanças ou ligações significativas à Europa tem. Mas faz parte da OTAN. Os curdos têm mais vontade para combater do que os iraquianos. Poderiam absorver muito território rapidamente quer na Síria quer no Iraque. O governo iraquiano não ia gostar muito. O sírio também não. A situação pode ser facilmente percebida vendo isto:
Também deixo mais um artigo acerca dos emigrantes:
http://www.washingtonpost.com/blogs...hpModule_04941f10-8a79-11e2-98d9-3012c1cd8d1e
O mundo está-se encaminhando para a sua fase mais tumultosa de sempre. O declínio militar dos EUA está intimamente ligado à sua economia, mais concretamente às ajudas que compram aliados e garantem uma estabilidade mundial mínima. Egito, Paquistão e Israel serão 3 países que atravessarão fases críticas. Sem a ajuda militar e/ou económica, os dois primeiros atravessarão graves crises financeiras e tumultos internos. O 3º ficará bastante vulnerável face aos vizinhos. Prevejo guerras civis intermináveis no Iraque e Afeganistão. Relativamente ao Iraque, o Irão nunca deixará que o sul/governo caia. Os curdos tentarão ao máximo sobreviver e com o dinheiro do petróleo lá comprarão armas, mesmo de má qualidade. O oeste sunita, pobre e deprivado de petróleo, será um campo fértil de recrutamento. No Afeganistão, o Irão e o Paquistão apoiam os Talibã. Os EUA apoiam o governo. O controlo dos campos de ópio é o objetivo máximo. São a garantia de verbas sem qualquer tipo de supervisão.
Já aqui escrevi. O Irão irá ter a sua bomba (empatando e não acredito que venha a cumprir o seu acordo quando houver). A sua sobrevivência depende disso (da mesma maneira que Israel tem as suas). E os EUA já não têm liberdade de manobra para se meter em mais uma guerra. Israel só atacará o Irão sozinho em último caso. Sem a proteção americana arrisca-se a ter uma guerra aérea. Aliar-se-á aos países do Golfo? Os seus exércitos são muito atrasados em comparação. Por agora, Israel atravessa um momento mais tranquilo porque o Hezbolah está ocupado na Síria. O
EI quer também eliminar o Hamas. Portanto, se formos a ver, Israel não tem interesse nenhum no término desta guerra. E não se importa que o EI ataque o Irão e afiliados. Claro que o EI não suporta Israel (há algum grupo militante islâmico que goste de Israel?). Mas um problema de cada vez.
PS: Tumultos no Egito farão com que o exército reforce a mão de ferro. Se a Irmandade Muçulmana voltar ao poder... Israel terá mais um inimigo declarado:
http://english.alarabiya.net/articles/2012/06/07/219272.html