Nisso tens razão. Mas não da forma como pensas. O que eu escrevi foi que é impossível todos os países terem excedentes comerciais ao mesmo tempo. É mentira? Generalizaste (e generalizas porque esta não é a primeira vez), erradamente, que sou anti-capitalista. Há que desmontar o capitalismo nas suas várias componentes. É comum eu abordar as coisas de forma generalizada? Tento abordar o mais detalhadamente possível todas as teorias.
Voltando às componentes do capitalismo chega-se ao fluxo de capitais. A Ásia é onde a maioria dos produtos são fabricados. São, portanto, nações exportadores. Na altura da abertura comercial entre a China e os EUA, um dos principais argumentos foi que as empresas americanas teriam um mercado colossal para venderem os seus produtos. 15 anos depois os EUA continuam a ter um défice comercial colossal (são uma nação eminentemente consumidora que muitas vezes já impediu recessões mundiais). Por outras palavras, foi uma falsa promessa. O mesmo se sucede na Europa. O empobrecimento persiste. A UE, no seu todo, tem um excedente comercial. Mas há que ver todas as estatísticas. É como eu dizer que a Irlanda está a ter um crescimento fenomenal para o típico cidadão
Excluindo o consumo governamental, o típico chinês continua a ser pobre. E aí reside o problema. Os chineses não consomem tanto produto europeu como por exemplo os EUA. Aliás, os despedimentos em massa na indústria chinesa deviam ser alarmantes. É uma mistura de robotização/aumento de produtividade com os salários mais baixos dos vizinhos. O caso da China é gravíssimo porque persistem desigualdades económicas internas muito grandes com implicações diretas na estabilidade social (é um país etnicamente muito diverso). A estagnação do crescimento chinês não é bom para a prosperidade europeia (aumento das exportações via aumento do poder de compra chinês). Os chineses são protecionistas do seu mercado. A abertura será feita muito lentamente. Quando houver crises, os controlos (de capitais por exemplo) poderão ser (ainda mais) longos (que os europeus). O governo quer transformar a China numa nação consumidora (se alguém produz alguém tem que consumir...

; daí que tenha escrito o que escrevi

). Mas é mais fácil falar do que concretizar.
Pode-se sempre ficar à espera que o típico trabalhador do Bangladesh, que trabalha 16 horas por dia, 7 dias por semana por meia dúzia de dólares, algum dia compre produtos de Portugal, Alemanha ou França. Eu sou abertamente pessimista. Só aconselho aos otimistas que esperem muito (décadas) para que isso aconteça. Até lá é empobrecer e viver do crédito (sendo que dívida é essencial no capitalismo mas isso é outro tópico vasto).