Os aguaceiros estão a findar e o que sobra da Ingrid para aqui, em termos de neve, é invariavelmente uma mão cheia de nada (ou quase nada)

No fundo, e atenção que estou a restringir-me a esta zona nas altitudes mais baixas, foi só mais uma entrada marítima para adicionar ao cemitério de flops de entradas marítimas de inverno. Não tinha grandes expectativas, como de resto deixei há muito de criar em eventos deste cariz, aliás na minha primeira análise eu disse logo que achava difícil surgirem aguaceiros que fossem muito mais que água-neve para estas altitudes (200-300m). Agora, confesso que achei que esta depressão tinha alguns traços especiais que poderiam ter feito alguma diferença e fiquei na esperança de ver algum aguaceiro só de neve... E a verdade é que à vista de eventos idênticos até foi possível ver água-neve várias vezes nesta madrugada, algo que nunca tinha presenciado desta maneira em nenhuma entrada do género. Mais de resto, o único louro que esta tempestade leva foi o facto de tentar oferecer o máximo de neve sem temperaturas em altitude extraordinariamente geladas (que é como quem diz fazer muito com pouco) e foi giro tentar perceber uma série de dinâmicas nos modelos e não só. Pode-se dizer que coloco esta tempestade numa posição generosa dos flops
Fica também a nota negativa para a forma algo caricata como os modelos globais e até os de mesoescala continuam a modelar situações de neve para esta região nestes contextos sinóticos, onde claramente partem para um exagero e que pouco tem em conta as especificidades orográficas. Modelar temperaturas à superfície de 1ºC para aqui ou 0ºC numa situação destas, é no mínimo surreal, assim como cotas de neve de 50, 100 ou 150m (talvez um dia quando tivermos uma depressão com alguns traços semelhantes a esta, mas muito mais frio na atmosfera ou ar mais seco...)

. Não ter nevado aqui ainda dou de barato, mas um pouco mais caricata ainda é a previsão de Viseu onde foi complicadíssimo nevar e onde até poderia ter acumulado... Num evento onde à semelhança de outras entradas marítimas o mecanismo de arrefecimento e entrega do frio tem por base o vigor das células, exigia que os modelos tivessem mais cautela a calcular cotas. A sensação com que fiquei do ECMWF deste evento é que foi bem menos conservador que o GFS nas cotas de neve, e de alguma forma o GFS acabou por ganhar em diversos locais, o que até é esquisito dado que o ECMWF costuma ter em conta mais alguns detalhes orográficos (o que não significa que o GFS tenha tido uma prestação melhor, porque andou às aranhas até ao fim sobre os timings da hora mais fria e da distribuição da precipitação, e então ao nível da modelação da famosa depressão satélite nem se fala...).