Floresta portuguesa e os incêndios

O caro fala do pinhal interior. Conheço a região e as suas características naturais. Contudo o eucalipto está bem presente longe do pinhal interior. Por exemplo, abunda nos distritos de Viana, Braga, Porto e Aveiro, zonas com mais chuva que a maior parte de França, bons solos e apenas dois meses secos.
 
As coisas não surgem no pinhal interior porque há aqui um elemento extra que explica. Não há gente para investir e viver lá. Como referi, os eucaliptos não dão trabalho. É pôr na terra e deixar andar. Um negócio normal implica estar presente no local, viver lá. E nesses concelhos não há jovens. Há reformados com a vidinha feita e os grandes empregadores são as autarquias, Misericórdia, serviços públicos.
 
As coisas não surgem no pinhal interior porque há aqui um elemento extra que explica. Não há gente para investir e viver lá. Como referi, os eucaliptos não dão trabalho. É pôr na terra e deixar andar. Um negócio normal implica estar presente no local, viver lá. E nesses concelhos não há jovens. Há reformados com a vidinha feita e os grandes empregadores são as autarquias, Misericórdia, serviços públicos.

E então, volto a perguntar, por que não "há gente para investir e viver lá"? É por serem terras de abundância e prodigalidade, como as lezírias e os vales do Minho?

Os eucaliptos "não dão trabalho" porque nenhuma floresta, em Portugal ou no resto do mundo, dá tanto trabalho como o dá uma cultura agrícola, são duas coisas totalmente diferentes.

Eu colho batatas 70 a 150 dias depois de as plantar. E tenho que andar lá todos os dias a cuidar delas. Eucaliptos plantam-se e colhem-se 10 ou 12 anos depois, e vai-se lá de vez em quando desbastar e limpar. Sobreiros plantam-se e só dão a primeira cortiça de valor aos 30 ou 40 anos. Até lá é só "prejuízo", e vamos ver se não ardem entretanto (o que no interior de Portugal é pouco provável...)

O problema de base é que em Portugal os solos agrícolas bons (os das batatas) são escassos, e nos maus, não se pode fazer vinho ou olival em todo o lado! Qualquer uma destas culturas, para ser rentável, tem de ter dimensão, como acontece por exemplo no Alentejo.

E, ainda assim, comparando o eucalipto com outras culturas florestais menos intensivas, esta ainda consegue dar mais "trabalho" (e remuneração). Por isso é que os proprietários o plantam, não são propriamente estúpidos.

Esta é a dura realidade.
 
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O pinhal interior tem condições para ter sobreiro. Eu sei perfeitamente que aqueles solos não são bons para a agricultura. Mas há alternativa. O problema do sobreiro é que terá de ser subsidiado para que as pessoas o ponham, já que os lucros só virão 30 ou 40 anos depois. Que assim seja, neste caso pontual. O pinhal interior tem melhores condições para o sobreiro que o Sul, onde o stress hídrico acentuou os efeitos nefastos da doença do sobreiro. A cultura do sobreiro terá de ser deslocada mais para Norte pois com o aumento das temperaturas e queda das precipitações os distritos de Beja, Évora e Faro têm neste momento uma elevada mortalidade de sobreiro.
 
Um senhor com quase 90 anos de uma aldeia da serra algarvia disse-me isto ná uns anos. «Quando era jovem se tivesse posto sobreiros nas terras dos meus pais, hoje era um homem rico com a cortiça; mas naquele momento, se não tivesse posto o trigo tinha morrido à fome».
 
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Pensava que Trancoso era distrito de Viseu....

Pois. Eu agora repetia aqui uma coisa que a minha avó dizia amiúde mas não vale a pena. Fica só a dica de que quando não sabemos do que falamos, ou não dizemos nada ou informamo-nos antes. Esta coisa da 'tudologia' não vale só para os tudólogos que falam na TV...
 
O caro fala do pinhal interior. Conheço a região e as suas características naturais. Contudo o eucalipto está bem presente longe do pinhal interior. Por exemplo, abunda nos distritos de Viana, Braga, Porto e Aveiro, zonas com mais chuva que a maior parte de França, bons solos e apenas dois meses secos.

Sim, mas ninguém planta eucaliptos em terra de pão. Ele abunda nesses distritos em terrenos florestais (os piores), ponto. E está num clima exatissimamente igual ao da sua região de origem (Tasmânia), daí as produtividades brutais que tem no norte de Portugal e na Galiza.

Outro erro que se ouve muitas vezes, até por "comentadores" e "sabichões" da comunicação social que são especialistas em tudo e têm opiniões definitivas, é o de que os outros países europeus não os plantam porque não querem. "Se os eucaliptos são tão bons, porque é que os suecos e os alemães não os plantam?", já ouvi eu de um famoso comentador televisivo.

Há uma única razão para a França (e outros países da Europa central e setentrional) não terem eucaliptos: é que não há eucaliptos que aguentem o frio e as geadas de lá!!!!

E eles bem tentaram lá os cultivar, até com variedades de altitude mais resistentes ao frio. Mas não dá, morre tudo à primeira vaga de frio.

Já as mimosas, que são plantas muito mais resistentes à geada e mesmo à seca, têm-nas em barda, junto ao mediterrâneo: https://www.la-croix.com/Culture/Art-de-vivre/Cote-dAzur-lombre-mimosas-fleur-2019-01-25-1200998048

E pelos vistos até fazem bom dinheiro com elas.
 
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O pinhal interior tem condições para ter sobreiro. Eu sei perfeitamente que aqueles solos não são bons para a agricultura. Mas há alternativa. O problema do sobreiro é que terá de ser subsidiado para que as pessoas o ponham, já que os lucros só virão 30 ou 40 anos depois. Que assim seja, neste caso pontual. O pinhal interior tem melhores condições para o sobreiro que o Sul, onde o stress hídrico acentuou os efeitos nefastos da doença do sobreiro. A cultura do sobreiro terá de ser deslocada mais para Norte pois com o aumento das temperaturas e queda das precipitações os distritos de Beja, Évora e Faro têm neste momento uma elevada mortalidade de sobreiro.

Claro que sim, o interior do país e mesmo o centro e norte litoral estão cheios de sobreiros, só falta tratá-los corretamente.

Agora, parece-me que não vai ser para produzir cortiça, nem existem condições de propriedades para ter o mesmo tipo de explorações que no Alentejo ou no Ribatejo. Vai ter de ser mais uma cultura florestal típica, de madeira, como se vê na Landes, em França.
 
O eucalipto em Portugal não é genericamente produtivo. Há uns anos estimava-se que só cerca de um terço das explorações eram produtivas. Não sei se os números mudaram.

Em vários concelhos do Norte e Centro o eucalipto ocupou todo o espaço que não é urbano nem tem agricultura. Por outras palavras, domina a paisagem. Isto deveria chocar-nos. Trata-se de uma destruição da nossa identidade paisagística e do nosso património.

A ser verdade que só um terço das plantações são produtivas temos condições para que haja um reordenamento e redução drástica da presença do eucalipto na paisagem.
 
Não haja ilusões...voltar a paisagem dos anos 30/40/50 é a curto/médio prazo mera utopia!
Não chega ter cidades médias no interior (essas serão bons centros de serviços), precisamos é do setor primário...esqueçam lá isso!
Só, repito, só nos resta ir gerindo a paisagem com fogo controlado e gestão estratégica em mosaicos (nos locais habituais de aceleração do fogo), tirando potencial á area ardida!
Reduzir incêndios de 5000 ha para os 1000/1500 ha será uma enorme vitoria...o problema é que a nossa escala em anos severos anda nos 20000 ha...
 
Não haja ilusões...voltar a paisagem dos anos 30/40/50 é a curto/médio prazo mera utopia!
Não chega ter cidades médias no interior (essas serão bons centros de serviços), precisamos é do setor primário...esqueçam lá isso!
Só, repito, só nos resta ir gerindo a paisagem com fogo controlado e gestão estratégica em mosaicos (nos locais habituais de aceleração do fogo), tirando potencial á area ardida!
Reduzir incêndios de 5000 ha para os 1000/1500 ha será uma enorme vitoria...o problema é que a nossa escala em anos severos anda nos 20000 ha...

Nos anos 30 o país já estava despido! Já tinha levado com 40 anos de campanhas do trigo. Depois até recuperou um pouco, o Estado Novo promoveu as plantações de pinhal no Centro e de sobreiro a Sul.

O ideal era termos floresta pública em todas as regiões do país e que pelo menos 10% da floresta fosse pública e nativa. Só isso já seria uma grande ajuda para preservar o património genético da flora portuguesa. E isso não é nenhuma utopia, nem é necessário muito dinheiro para tal.
 
E quem geria depois milgares de ha de floresta? Quem rocaria os matos? Quem vigiaria e combateria incêndios?
O estado?
Teria que incorporar tantos funcionarios públicos que o défice aumentaria
 
E quem geria depois milgares de ha de floresta? Quem rocaria os matos? Quem vigiaria e combateria incêndios?
O estado?
Teria que incorporar tantos funcionarios públicos que o défice aumentaria

As florestas não têm mato quando já estão desenvolvidas.

Nós em Portugal tivemos durante séculos floreta nativa nas mãos da Igreja e das populações locais. Suponho que não desse assim tanta despesa pois o país era genericamente pobre. Além disso uma floresta dá lucros. Não são lucros milionários mas chegam para pagar aos funcionários.
 
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Nós no cômputo geral temos excesso de funcionários públicos no país.

Mas há áreas onde há carência. Quem me segue aqui no fórum sabe que há anos que digo aqui que há falta de vigilantes da Natureza e do território. Com ou sem mais floresta pública há falta de vigilância.
 
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A alternativa é, nas próximas eleições, não votar no Costa. Os ministros que ele lá colocou são aldrabões, demagogos, e apesar de terem o dinheiro não o vemos a ser investido.
Depois criaram programas que beneficiaram a plantação de eucaliptos. O atual governo foi o que mais plantou eucaliptos de todos os governos desde há 45 anos. :(

Quem planta eucaliptos são as pessoas, os proprietários dos terrenos e não o governo. As pessoas plantam eucaliptos porque na escala temporal das suas vidas o eucalipto é a espécie mais rentável e que dá menos trabalho. Se queremos uma floresta genericamente diferente tem que haver apoio e intervenção do Estado.